quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Monstros de Ferro - Os projetos de Super-Tanques da Grande Guerra


Em uma época em que a Guerra Total parecia não ter fim e o horror das trincheiras rasgava a Europa de um extremo ao outro, quanto mais potentes e maiores as armas, melhor.

A Grande Guerra (1914-1918) foi um conflito extremamente sangrento, apenas o primeiro de um século marcado por violência, brutalidade e destruição em nível industrial. Armas letais, máquinas bizarras e dispositivos até então impensáveis, jamais testados em campo de batalha, surgiam de ambos os lados e eram imediatamente colocados em uso na ânsia de provocar mais danos no lado inimigo.

Foi nessa época que um termo não oficial surgiu para descrever uma categoria que ia além dos veículos militares que haviam surgido poucos anos antes. Máquinas ferozes, verdadeiros monstros de ferro, com blindagem de aço e aspecto aterrorizante. Mas do que tanques de guerra pesados, esses eram Super-Tanques.

É curioso, mas praticamente todas as grandes potências europeias envolvidas no conflito realizaram testes para desenvolver Super-Tanques. A Alemanha, o Reino Unido, a França e a Rússia, chegaram a criar projetos em segredo para a construção dessas terríveis máquinas de destruição. Contudo, nenhum desses projetos chegou a ser utilizado ativamente antes do final da guerra, em parte pelo custo, mas principalmente pelas dificuldades técnicas na construção de tais armas. Ainda assim, parecia haver uma espécie de corrida armamentista para desenvolvimento dessas máquinas.


De fato, muitas nações consideravam que era questão de honra triunfar sobre seus oponentes no campo das inovações tecnológicas com novos implementos bélicos. A Guerra que começou com armas de fogo simples, cavalos e canhões havia progredido em uma velocidade incrível, permitindo o surgimento de metralhadoras, aviões, submarinos e tanques blindados. Os Comandantes esperavam ansiosos pela próxima criação que viria a reforçar seus exércitos, mudando o panorama da guerra.   

O Char 2C, idealizado pelo Exército francês talvez tenha sido o único Super-Tanque construído no período, mas haviam planos para muitos outros. Os franceses o incorporaram às Forças Armadas, contudo ele jamais foi testado em combate. Os Super-Tanques britânicos e russos, por sua vez, permanecem no reino da fantasia, em desenhos de seus idealizadores, jamais indo além da fase conceitual. Os alemães desenvolveram o conceito de Super-Tanques realmente monstruosos. Dentre todos, possivelmente foram eles que chegaram mais perto da criação de tanques de guerra que mereciam a alcunha de "Super-Tanques". O Alto Comando Alemão chegou a considerar que a grande virada no curso da guerra poderia ser alcançada com o uso dessas máquinas. Mas dada a falta de recursos nos dias finais da Grande Guerra, o custo se tornou alto demais. Sem os recursos necessários, os alemães jamais levaram adiante seus planos que pararam na fase de protótipos. 


O que mais impressiona a respeito dos Super-Tanques é a ambição de seus engenheiros e criadores.  No papel, eram armas imensas, capazes de causar destruição em larga escala e levar a ruína a cidades inteiras com seu alto poder de fogo e as barragens contínuas que despejariam sobre elas. Eles seriam resistentes a bombardeios, granadas e às armas mais potentes; virtualmente nada conseguiria romper sua blindagem reforçada por camadas de ferro. Eles se moveriam lentamente, mas seriam perfeitamente móveis, atrelados a trens e composições para que pudesse atingir os alvos desejados. 

Talvez uma das maiores bençãos para a humanidade tenha sido o fato desses monstros não terem sido construídos, mas suas marcas permanecem, como uma peça peculiar da história militar.

Vejamos alguns Super-Tanques:

1. K-Wagen, Alemanha



Os alemães são conhecidos pela sua capacidade técnica e pelas proezas de engenharia. Durante a Segunda Guerra, os blindados nazistas eram considerados tão superiores perante os tanques aliados que todo o programa americano e soviético foi refeito após a guerra para adotar os princípios alemães. Tanques como o Tiger II e o Leopard eram tão avançados que serviram de base para a criação de todos os tanques modernos.

O início da indústria militar de tanques na Alemanha, contudo, foi pouco impressionante. Apenas em 1917, no final da guerra, o Império alemão deu início a construção de Tanques de Guerra através do A7V, o primeiro veículo de combate blindado da história alemã. 

O A7V tinha muitos defeitos, entre os quais o motor de baixo rendimento. Contudo, seu potencial era evidente, como ficou claro logo no início de sua utilização em territórios irregulares cheios de trincheiras. O A7V conseguia percorrer o caminho da Terra de Ninguém, repleto de crateras e detritos. Era preciso um obstáculo realmente desafiador para segurar seu progresso, tanto que ele ganhou o apelido desagradável de "esmagador de ossos" pela sua capacidade de atropelar quem ficasse na frente. 

Os alemães não ficaram parados e continuaram a melhorar seu tanque esperando que ele pudesse mudar o curso da guerra. Muitos Generais achavam que a solução para terminar com o impasse nas trincheiras era produzir tanques que simplesmente avançariam pela terra de ninguém e sobre quem quer que ousasse se manter diante dele.

Por volta de meados de 1917, a K-Wagen, uma empresa que investia em motores de tratores recebeu o sinal verde para sua produção. O pioneiro da engenharia de tanques na Alemanha Joseph Vollmer, foi instruído a criar um tanque que deveria aprimorar ainda mais as características do A7V. Ele deveria ser capaz de irromper através de qualquer terreno, sob quaisquer situação. E nada poderia pará-lo!


Apenas um dos protótipos do K-Wagen foi concluído pouco antes do término da guerra. Entretanto, ele foi destruído após os acordos do Tratado de Versalhes, que proibia a Alemanha de produzir e possuir tanques em seu arsenal militar. Dizem que os britânicos tentaram alistar Vollmer no Corpo Real de Engenharia Militar, mas ele se negou a fazê-lo, sendo então preso. Vollmer temia que sua arma mais letal pudesse ser usada contra seu próprio povo em uma futura guerra. E ele tinha muitas razões para temer essa tecnologia nas mãos de qualquer inimigo em potencial.

O K-Wagen seria um verdadeiro monstro em seu tempo. Ele era armado com quatro canhões fixos de 77 mm, dois na dianteira e dois na parte traseira. Ao redor da torre de comando, ele possuía nada menos do que sete Metralhadoras Maxim rotativas, sendo que essas armas podiam ser movidas para atingir alvos em qualquer posição. Com poder de fogo pleno, as sete metralhadoras poderiam produzir uma barragem com mais de 10 mil disparos por minuto, o bastante para devastar uma posição inimiga. Os planos do K-Wagen supunham que ele transportasse uma tripulação de 27 homens, entre pilotos, artilheiros e municiadores. 

O Super-Tanque pesava incríveis 120 toneladas e tinha uma espécie de pá de trator na parte da frente que era usada para atropelar e destruir bunkers inimigos. Uma corda de aço podia ser presa em dois tanques simultâneamente e usada para destruir árvores, cortando-as ao meio, essa corda também podia ser empregada na destruição de prédios e edificações.

A despeito de seu armamento pesado e poder de destruição, a proteção do K-Wagen era "fina" com apenas 30 mm. Comparado com tanques da Segunda Guerra ele estava na categoria de blindagem média. É provável que os engenheiros pretendessem conceder ao Super-Tanque uma blindagem superior, mas a falta de recursos nos dias finais da Guerra os levaram a assumir um projeto mais realista. Em parte, a blindagem pouco eficaz foi um dos motivos para que o tanque jamais fosse uma prioridade para as Forças Armadas que consideravam o veículo pouco resistente.

2. Mendeleev Rybinsk Tank, Império da Rússia



O Mendeleev Rybinsk recebeu o nome de seu criador, Vasily Mendeleev, e pela cidade em que os primeiros desenhos do veículo foram apresentados para os oficiais do Exército Imperial Russo

Os russos tinham interesse em tanques de guerra, em parte por que as suas forças armadas eram consideradas incrivelmente atrasadas em questões de tecnologia e desenvolvimento bélico. Além disso, tinham um parque industrial consideravelmente menos desenvolvido que as demais potências e viam nos complexos militares uma forma de desenvolver mais tarde sua industria pesada. Seria uma maneira de modernizar o país e fazer com que ele entrasse, mesmo que atrasado na Revolução Industrial.

Os Tanques Russos, no entanto, eram bem pouco eficazes. A tecnologia de motores era rudimentar e seus veículos lentos e pesados não tinham muito uso nos campos de batalha cobertos de neve e gelo. Alguns dos tanques usados pelos russos, cedidos pelos britânicos, haviam sido um verdadeiro fiasco quando empregados no front e os próprios generais, arraigados a tradições de cavalaria, acreditavam que o Tanque jamais teria uso prático como apoio da infantaria. Preferiam recorrer aos destacamentos montados pela sua velocidade e agilidade.


Ainda assim, Mendeleev recebeu ordens para trabalhar na criação de um Super-Tanque que poderia ser utilizado com o objetivo de levar artilharia e disparar atrás das posições inimigas ou em cidades. O veículo idealizado por Mendeleev e que jamais avançou além de um conceito teria dois imensos canhões de 127 mm, instalados sobre um grande corpo semelhante a um vagão de trem pesando 173 toneladas. Ele seria operado por 13 homens e poderia disparar, em condições ideais até 2 vezes a cada cinco minutos, criando assim uma barragem contínua de fogo. O plano é que o Mendeleev Rybinsk pudesse ser posicionado até 8 quilômetros de um alvo e de lá disparasse continuamente até reduzi-lo a ruínas. Muito mais blindado que o Super-Tanque alemão, ele teria placas de aço reforçado com 70 mm de espessura. Ele contava ainda com um sistema revolucionário de suspensão à gás e um motor de alta performance que rodaria com combustível especial.

Um dispositivo único, inventado por Mendeleev permitiria que o Super-Tanque pudesse ser atrelado a trilhos ferroviários, funcionando como um tipo de Trem. O objetivo era aproveitar a grande malha ferroviária do país e assim garantir um deslocamento muito mais eficiente. O projeto recebeu pouco apoio e Mendeleev tentou construir o veículo por conta própria. A falta de interesse pelo governo evitou que ele pudesse dar vida ao projeto e fazendo isso, impediu que o mundo conhecesse seu monstro de ferro. Após a guerra, os soviéticos até chegaram a contemplar a possibilidade de recriar o Mendeleev e usá-lo para bombardear cidades ainda controladas pelos contra-revolucionários, mas o alto custo do projeto freou qualquer avanço nesse sentido.

3. O Elefante Voador, Grã-Bretanha



William Tritton, um especialista na construção de tratores e máquinas agrícolas, tornou-se o pioneiro britânico na criação de tanques e veículos blindados durante a guerra. Tritton foi chamado para consertar as falhas no Mark I, o primeiro tanque britânico a ver os campos de batalha lamacentos da França. O grande problema do Mark I era justamente o terreno irregular onde ele deveria operar.

Para lidar com os problemas impostos pelo terreno irregular, os veículos na concepção de Tritton deveriam ser leves e ágeis. Os tanques deveriam permitir uma progressão do veículo até o alvo pretendido. Esse então era fulminado com metralhadoras pesadas Vickers instaladas em bases rotativas. As plataformas móveis dos veículos de Tritton foram um enorme avanço e permitiam aos artilheiros desferir rajadas sobre a posição inimiga em diferentes ângulos. Infelizmente, esses tanques leves não forneciam muita defesa contra artilharia. Tanques leves conseguiam se deslocar com grande mobilidade, mas quando apanhados em fogo cruzado ficavam muito vulneráveis.

Quando vários tanques idealizados por Tritton, entre os quais o AFV se mostraram pouco efetivos no front, o Alto Comando quase terminou com a Divisão de Veículos Motorizados. A Grande Guerra era travada com armas e explosivos muito potentes e um veículo leve, embora conseguisse atingir seus alvos, raramente retornava inteiro das suas missões. A tripulação desses veículos era frequentemente eliminada pelo fogo inimigo. Os veículos se tornavam uma armadilha mortal já que a blindagem dos carros era ineficaz e não era nada fácil escapar de seu interior quando enfrentando fogo pesado.

Pensando em uma solução viável para a questão, Tritton partiu em uma busca por um tanque que pudesse combinar velocidade e blindagem. O projeto concebido em 1916 foi batizado Flying Elephant (Elefante Voador) e contemplava um veículo pesado de aproximadamente 100 toneladas com blindagem de chapas de aço de 3 polegadas na frente e 2 pelegadas nas laterais. Apesar de seu peso exagerado e blindagem pesada, o Elefante era rápido com um motor extremamente potente e esteiras que giravam com enorme velocidade.


O Super-Tanque contava com um canhão de 57 mm, mas algumas fontes afirmam que essa arma poderia ser trocada por um canhão mais eficiente de 75 mm. Nas laterais, o Super-Tanque possuía 2 metralhadoras giratórias Vickers de cada lado. Na parte posterior havia uma plataforma de artilharia giratória com quatro outras metralhadoras móveis que podiam disparar simultâneamente. O poder de fogo do Elefante Voador era considerável e podia acabar com qualquer resistência pulverizando-a em poucos minutos com uma barragem de disparos. Para torná-lo ainda mais letal, essa plataforma giratória elevada poderia receber dois lança-chamas que disparavam ao mesmo tempo a uma distância de até 15 metros. O objetivo era empregar esse lança-chamas para atingir posições subterrâneas e transformar túneis e passagens em um verdadeiro inferno. Tritton usava uma analogia interessante, afirmando que os soldados presos nas trincheiras teriam de fugir como ratos para não serem assados vivos. E que mesmo estes não iriam longe, pois seriam alvejados pelas potentes metralhadoras laterais.

O Elefante Voador além disso tinha outra característica aterrorizante, ele podia ser usado para derrubar instalações e bunkers. Para tanto, o canhão podia ser modificado para disparar um aríete com ponta de ferro para penetrar em paredes. Este aríete era conectado a correntes de ferro que seriam então puxadas até que a edificação cedesse.

No final de 1916, o Super-Tanque recebeu o aval para entrar na fase de protótipos, mas a Grande Guerra terminou antes. O conceito foi abandonado posteriormente quando as forças armadas consideraram que o custo do projeto seria exorbitante e que ele poderia ser detido por condições adversas de terreno. Por muitos anos, a Grã-Bretanha continuou produzindo tanques leves e velozes, até que estes se mostraram completamente ineficientes na Segunda Guerra Mundial. 

4. Char 2C, França



O único Super-Tanque operacional nessa lista foi o Char 2C.

Em dimensões físicas ele foi o maior tanque da história militar a entrar em serviço em tempos de guerra. Seu desenvolvimento se iniciou em 1916, pouco depois da introdução do Modelo Mark I pelos britânicos e os desenhos para a construção de outros veículos blindados no ano seguinte.

Os franceses tinham grande apresso pela ideia de tanques de guerra como uma forma de proteger seus soldados e atingir os inimigos, resguardando os atacantes atrás de uma proteção eficiente. Muitos engenheiros militares acreditavam que no futuro, guerras seriam travadas e vencidas por gigantes de aço que se deslocariam lentamente, deixando uma trilha de escombros após a sua passagem. Com um conceito que parecia ter saído das Novelas fictícias de Jules Verne, os Generais franceses estavam convencidos de que a Guerra seria vencida pela nação que conseguisse construir as armas mais potentes e mobilizá-las com maior velocidade.

Os franceses, aliados dos britânicos, receberam planos para a construção de seus próprios tanques de guerra com base no Mark I e se saíram muito bem. Contudo, eles contemplavam a construção de algo muito mais ambicioso. Um enorme esforço foi feito pelas Forças Armadas para reunir engenheiros e inventores com o propósito de construir um tanque que cumprisse as metas estabelecidas. O primeiro protótipo do Char 2C foi terminado em 1917, mas ele não ficou pronto à tempo de ser usado no conflito. Um modelo chegou a ser enviado para o fronte, mas problemas nas linhas férreas atrasaram que ele chegasse à tempo de ser utilizado. A Guerra terminou uma semana antes dele chegar ao seu destino para frustração dos generais que esperavam testar seu desempenho.

O Char 2C tinha notáveis 10,27 metros de comprimento e pesava pouco mais de 70 toneladas, consideravelmente menos do que os Super-Tanques das demais nações. Contudo, ele tinha uma vantagem sobre todos os outros: o projeto foi completado! 


Apelidado de "Encouraçado de Terra" (em analogia aos navios mais resistentes do período) ele possuía uma blindagem de aço reforçado com 60 mm de espessura na frente e 30 mm nas laterais, o bastante para suportar disparos diretos, granadas e até peças de artilharia. O Super-Tanque era lento e tinha um desempenho ruim no terreno coberto de sulcos e lama. As esteiras acabavam deslizando e era um verdadeiro desafio mantê-lo em movimento em linha reta sem que ele rateasse para fora do curso. Ainda assim, seu motor suportava bem o esforço.

As armas do Char 2C eram potentes: ele contava com um canhão de 75 mm, modelo Canon modèle 1897, a peça de artilharia mais usada pelo exército francês. Em adição a isso, possuía quatro metralhadoras de 8 mm Hotchkiss Mle 1914. Duas eram instaladas numa plataforma móvel no topo, permitindo disparos para frente e para trás, e uma em cada lateral. Em testes, o Super-Tanque teve um desempenho satisfatório, chegando a disparar todas as armas simultâneamente em uma demonstração de seu poder de destruição.

Um dos planos para uso do Char 2C era utilizá-lo no front do sul da França, para empurrar o exército alemão para o norte onde o maior contingente francês aguardava. Para isso, uma coluna de pelo menos 50 tanques deveria ser construída.

Quando a Grande Guerra terminou, os franceses continuaram trabalhando nele, produzindo 10 unidade até 1921. Os Char 2C, porém se tornaram obsoletos à medida que novas armas mais potentes e móveis foram sendo incorporadas a infantaria. Bazucas e lança granadas se mostravam perfeitamente capazes de romper a blindagem dos tanques. Em 1930, os Char 2C eram considerados alvos fáceis para bombardeiros táticos e divisões equipadas com armas anti-tanque.

No início da Segunda Guerra Mundial os poucos tanques Char 2C que ainda faziam parte das Forças Armadas foram mantidos na retaguarda, onde eram usados como peças de propaganda. O público via esses tanques como máquinas invencíveis que desempenhariam um papel central na iminente invasão nazista. Quando a França foi derrotada rapidamente em 1940, eles se tornaram um símbolo da tecnologia ultrapassada do Exército francês diante dos alemães.

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Lankhmar - RPG Clássico em Financiamento, corre lá!!!



ATENÇÃO PESSOAL!

CHAMANDO TODOS JOGADORES E MESTRES DE RPG.  RESPONDAM RÁPIDO:

(    ) Você gosta de RPG clássico? 

(   ) Quer conhecer um jogo icônico de Fantasia, Aventura e Mistério?

(   ) Uma Ambientação impressionante criada pelo genial Fritz Leiber?

(   ) Com um sistema incrível, conhecido por ser Rápido, Divertido e Furioso?

(   ) Com a chance de adquirir o material por um preço camarada?

Se você respondeu sim para ao menos uma dessas opções, então você precisa conhecer... 

Essa ambientação é nada menos do que sensacional e está em Financiamento Coletivo pela Retropunk!

Mas, você vai se odiar se não ler essa postagem e deixar de participar no primeiro dia da Campanha.

Por que? Simples! Porque comprando HOJE, você obtém um tremendo RPG com um desconto muito bom. Sem falar que fechando hoje, todo mundo que participou num determinado valor ganha kit de dados (E TODO MUNDO AMA DADOS!)

Não acredita em mim?

Então leia o PRESS-RELEASE da própria Retropunk:

E quando terminar corra para entrar antes das 8 da manhã de terça feira. 

Segue o Release:


A Retropunk tem a honra de trazer: LANKHMAR para Savage Worlds.

Baseado nas obras do genial Fritz Leiber, Lankhmar é uma cidade situada mundo de Nehwon, conhecida como “a cidade dos ladrões” e que serve como cenário para as histórias de dois ladrões, Fafhrd e o Rateiro Cinzento, que vivem às voltas com homens ratos que desejam tomar a cidade, com a temida e poderosa Guilda dos Ladrões, com feiticeiros malignos e várias outras situações e aventuras.

No ano de 2015, a Pinnacle lançou uma versão do cenário usando seu sistema de regras, o Savage Worlds, esta versão agora está sendo lançada pela Retropunk através de um financiamento coletivo. Os jogadores encarnam o papel de ladrões tentando ganhar a vida na caótica e obscura cidade de Lankhmar, correndo atrás de fazer alguns trocados e de quebra salvando o dia.

Sobre os livros e o material do FC em si, temos três livros principais, um livro mega-surpresa, o escudo, a aventura olhos de Goro’mosh, dados e Benes especiais e um mapa de Lankhmar e de Nehwon e uma luva para os livros.


Metas Básicas

Lankhmar: Cidade dos Ladrões
um livro que detalha as principais regras de ambientação e o cenário de Lankhmar, incluindo novas Raças, Vantagens e Complicações, novos antecedentes arcanos (Magia Negra, Branca e Elemental), várias informações sobre a cidade e novas regras de ambientação (incluindo regras para traição!!)

Lankhmar: Histórias da Guilda dos Ladrões um livro com várias Histórias Selvagens que podem te ajudar a começar uma campanha em Lankhmar ou podem servir como histórias independentes.

Lankhmar: Inimigos Selvagens de Nehwon um livro que detalha quem é quem em no cenário, dando fichas das principais personalidades e também um gerador de aventuras para auxiliar a criar suas próprias histórias selvagens.

Lankhmar: Mares Selvagens de Newhon um livro ainda inédito nos EUA que detalha os mares do mundo de Nehwon, dá várias informações sobre a temática, idéias para aventuras marítimas e de pirataria, traz um gerador de aventuras no estilo e um bestiário dos mares de Nehwon.

Dados, Benes, Mapa e Luva e Arquétipos kits de dados e benes exclusivos do cenário, importados diretamente da Pinnacle, além de mapas e uma luva especial para acomodar os livros, além dos arquétipos

Como Metas Extras Teremos:

Escudo um escudo reforçado com arte temática e um resumo das principais regras de ambientação do cenário.

Olhos de Goro’ Mosh, uma mini campanha que trata de uma nova fé que surge em Lankhmar e quanto mais ela cresce, mais cresce o número de corpos encontrados pelas ruas da cidade.

E não é só isso, a Retropunk dará para condições especiais e descontos no dia um, na primeira semana.

Além disso, se a meta for batida já no primeiro dia (Até as 8:00hs do dia 14/11) todos os apoios a partir de 150 reais ganharão um kit de dados exclusivos (1 Kit por Financiador).

Tá aqui ainda?

Corre e veja no (discreto) link abaixo!!!!!!!!



domingo, 12 de novembro de 2017

Fantasmas do Tsunami - Narrativas dramáticas de assombrações em uma tragédia


Desastres horríveis provaram ao longo das eras atrair para si, histórias a respeito de espíritos inquietos pertencentes àqueles que morreram tragicamente. Parece que um número elevado de mortes, ocorridas em um piscar de olhos, e o sofrimento indescritível que isso enseja, acabam reverberando, quase criando uma presença obscura que se fixa nas ruínas onde antes viviam essas pessoas. De fato, alguns dos lugares mais assombrados do mundo estão localizados onde ocorreram crises, guerras, massacres ou que enfrentaram a fúria da natureza.

Uma região do Japão não ficou isenta de tais histórias macabras, e ao fim de um dos maiores desastres da história, além dos destroços restaram incontáveis relatos de almas perdidas, assombrações bizarras e horror sobrenatural.   

Em março de 2011, uma tragédia de enormes proporções atingiu o Japão.

Um Terremoto de magnitude 9 destroçou o país, gerando como efeito direto, um devastador Tsunami que desembocou na costa de Tohoku na parte leste do país deixando um rastro de morte e destruição sem precedentes. Se o tremor de terra e a onda resultante não fossem ruins o bastante, a Usina Nuclear Fukushima Daiichi foi severamente atingida acarretando num derretimento considerado um dos piores da história, envenenando o meio ambiente e causando sequelas em pessoas e animais dali em diante. O evento foi especialmente aterrorizante para quem testemunhou em primeira mão, mas milhões de pessoas, mundo afora, também puderam assistir, estarrecidas os horríveis efeitos em tempo real, em suas próprias casas. Parecia um pesadelo surreal sendo transmitido ao vivo. As imagens remetiam a filmes catástrofe, com um importante diferencial: elas eram verdadeiras!


As populações das áreas afetadas experimentaram um terror indescritível quando a água arrastou tudo em seu caminho em uma inundação de proporções bíblicas. Milhares e milhares de pessoas morreram, muitas outras se feriram ou ficaram desabrigadas, o som dos gritos e o choro complementavam o cenário de carnificina. A paisagem se tornou uma vasta desolação de destroços, carcaças de veículos virados, prédios desmoronados e cadáveres insepultos. Mais do que isso, incontáveis sonhos e aspirações haviam sido destruídos por completo, feridas psicológicas e cicatrizes deixadas na própria alma, danos difíceis de sanar. O impiedoso tsunami arrastou automóveis, arrancou árvores pela raiz e fez cair casas como se essas coisas fossem feitas de papelão. Barcos foram arrastados para o interior do continente pela fúria das ondas. Prédios inteiros desmoronaram como frágeis castelos de cartas. Uma aterrorizante demonstração da fúria da natureza. Das construções que resistiram, a maioria teve de ser colocada abaixo por representarem um grave perigo estrutural. Mesmo o contorno de algumas ruas tiveram de ser refeitas, fazendo com que o desenho das cidades fosse alterado para sempre. E tudo isso, sob o espectro da radiação que vertia do reator fraturado. 

Tohoku mais parecia uma zona de guerra! A sensação encontrava eco no passado, sendo o Japão a única nação a conhecer na carne o poder do horror atômico. Uma vibrante comunidade em um piscar de olhos foi feita em pedaços.  

Ali, entre os destroços, aqueles que sobreviveram tentavam entender o que havia acontecido. Aos poucos, elas foram reerguendo suas vidas e reconstruindo a cidade, enquanto ainda pranteavam os mortos. A essa altura, não se sabia quantos haviam perecido, mas as estimativas eram funestas. Falava-se de milhares de pessoas, números que, lamentavelmente, se mostraram precisos.

Não muito depois do Terremoto e do Tsunami, um estranho fenômeno começou a se tornar frequente: alguns falavam a respeito de encontros com pessoas que haviam morrido na tragédia. Fantasmas de parentes, amigos ou vizinhos que haviam perdido suas vidas andavam pelas ruas das cidades. Testemunhas mencionavam ver fantasmas em fila na frente de mercados e lojas, que haviam sido deixadas em frangalhos. Fantasmas eram vistos em lugares em que elas frequentavam quando vivas. Espectros espreitavam em terrenos baldios, escalando as ruínas de pedra e concreto onde antes ficavam suas casas. Alguns mencionavam aterrorizantes visões de figuras fantasmagóricas correndo em desespero, como se as ondas ainda estivessem lhes perseguindo. Elas atravessavam paredes e se dissipavam em pleno ar. Essas testemunhas afirmavam ver detalhes dessas aparições: algumas tinham uma expressão de medo e horror, outras deixavam evidentes os ferimentos sofridos, os mesmos que talvez tivessem decretado as suas mortes. Os mais assustadores eram aqueles que gritavam e choravam pedindo socorro, ou sussurravam em busca de um auxílio que nunca veio e que jamais viria.


Uma mulher idosa de Onagawa que morreu no desastre e que tinha o hábito frequentar uma casa de chá, era vista com frequência próxima ao local que foi varrido pelas ondas. Algumas pessoas afirmavam até ter conversado com ela que perguntava o que havia acontecido com o local. Quando respondiam, ela chorava e sumia, deixando no local pequenas poças de água salgada. Alguns até comentavam sobre presenças sinistras espiando em becos e janelas, como se estivessem estranhando o ambiente modificado e buscando um contato com os vivos.

Nessa mesma época, uma epidemia de pesadelos irrompeu com força no Japão. Muitas pessoas acordavam no meio da madrugada gritando não pelos horrores que haviam ficado registrados em sua memória, mas aterrorizados com a presença de seres espectrais em seus quartos. Falava-se de espíritos que pisavam ou sentavam sobre o peito das pessoas, sufocando-as. Um cheiro de maresia parecia acompanhá-los e pegadas de água salgada registravam sua presença onde quer que fossem vistos. 

Alguns dos relatos mais desconcertantes provinham de motoristas de taxi que afirmavam parar os veículos para apanhar passageiros no meio da madrugada e descobriam que eles simplesmente desapareciam, algumas vezes, depois de embarcar nos automóveis. Essas narrativas eram muito frequentes na cidade de Ishinomaki, no Distrito de Miyagi, que foi atingido com força pelo Tsunami e registrou a morte de pelo menos 6 mil pessoas, sendo que muitos dos corpos jamais foram encontrados. Aqui, nas ruas escuras, taxistas contavam até ter conversado com alguns desses passageiros fantasmas. Um motorista descreveu ter apanhado uma jovem mulher poucos meses depois do desastre. Ela queria ir até a Estação Ishinomaki, uma área que simplesmente deixou de existir após a inundação. Quando o motorista explicou à mulher que não havia nada lá desde o Tsunami, ela colocou as mãos na cabeça e começou a gritar em desespero. 

"Será que eu morri?", ela perguntou antes de se desmaterializar bem diante dos olhos do condutor.


Muitos outros motoristas na área reportaram experiências similares ao apanhar passageiros e estes simplesmente desaparecerem durante a viagem. Mesmo assim, a maioria deles afirmava que os fantasmas pareciam perfeitamente normais; pessoas que respiravam, falavam e interagiam. Em um caso, um passageiro deu instruções específicas do endereço onde queria chegar que era uma das casas destruídas pelo tsunami. Quando o carro chegou ao local, o taxista olhou para o bando traseiro e ele havia sumido. É interessante ressaltar que nenhuma dessas testemunhas afirmou ter sentido medo no momento, provavelmente por que estavam convencidos de que se tratavam de pessoas de carne e osso, não fantasmas mortos durante uma tragédia. O fenômeno em Ishinomaki foi estudado pelo pesquisador e parapsicólogo Yuka Kudo, um professor da Universidade Tohoku Gakuin, que, como parte de sua tese de graduação entrevistou mais de 100 motoristas de taxi a respeito de seu estranho contato com fantasmas após o desastre de 2011. Vários deles mostraram seus diários nos quais estavam anotadas as corridas em que deram carona para fantasmas. Um dos motoristas explicou que: "não era estranho encontrar fantasmas na área, e que, apesar de nem todos taxistas reconhecerem, a maioria deles já havia tido uma experiência estranha". 

Outras histórias de fantasmas surgiram a área por algum tempo. Escritórios, casas e lojas eram vítimas frequentes de aparições pertencentes a pessoas mortas na inundação. Serviços de emergência eram chamados frequentemente para prestar socorro a pessoas que pareciam feridas ou machucadas. Quando a ambulância ou bombeiros chegava, a pessoa desaparecia como se jamais tivesse existido. Em uma única noite, em Outubro de 2011, o serviço de socorro de  Ishinomaki , registrou mais de 20 pedidos de socorro, sendo que nenhum deles foi cumprido uma vez que a pessoa a ser socorrido havia sumido. O serviço de atendimento de acidentados também recebia ligações de pessoas pedindo socorro, e quando respondiam a eles, descobriam que os endereços dados pertenciam a lugares destruídos. Pessoas em algumas áreas reclamavam frequentemente a respeito de fantasmas e isso fez com que muitos imóveis fossem abandonados ou negociados a um preço abaixo do valor de mercado.

Ainda mais assustador foram aos relatos sobre pessoas sendo contatadas por espíritos pertencentes aos mortos na catástrofe. A coisa chegou a tal ponto que sacerdotes Budistas e Shintoístas foram chamados para exorcizar áreas inteiras contendo destroços onde supunha-se estarem sepultados cadáveres não descobertos. Em um fascinante artigo pelo autor Richard Lloyd Parry para o London Review, intitulado "Ghosts of the Tsunami" (Fantasmas do Tsunami), são reveladas várias histórias de sobrenatural e de exorcismos realizados pelo sacerdote Taio Kaneda, que costumava viajar pela costa com um grupo de sacerdotes após a tragédia para lidar com tais distúrbios espirituais. Um dos relatos mais impressionantes menciona um empreiteiro local, que usa o nome falso "Takeshi Ono" para se identificar.


A história do Sr. Ono começa em sua casa em Kurihara, uma pequena cidade a cerca de 15 quilômetros da costa atingida pelo Tsunami. No momento do desastre, Ono não estava em casa, ele conseguiu deixar a área que foi evacuada às pressas logo após o terremoto. Assim como muitos, ele assistiu pela televisão a chegada do tsunami que chegou a atingir sua casa. Após o acontecimento, ele decidiu que só retornaria para verificar a extensão dos danos uma semana depois para avaliar o que fazer. No dia em que estavam se aproximando do local, Ono contou que começou a passar mal e sentir tontura. De repente ele perdeu a consciência, mas disse ter continuado a sentir uma estranha percepção dos seus arredores: "Era como estar em um sonho, mas eu sabia que estava vendo algo mostrado pelos espíritos que desejavam falar através de mim e se comunicar com seus entes queridos".  Ono que não esteve presente ao desastre disse ter experimentado toda a caótica destruição e desespero, conforme ele se recorda: 

"Eu via os destroços, eu via o mar se aproximando. Eu via os prédios caindo e ouvia as pessoas gritando ao meu redor. Não era uma alucinação, eu sentia a atmosfera de medo e o desespero das pessoas ao meu redor. Foi um choque! É difícil de descrever, pois embora eu estivesse no centro dos terríveis acontecimentos, eu não podia fazer nada para ajudar, e também não podia ser atingido por tudo que estava ao redor. Meu primeiro sentimento foi que estava enlouquecendo, sobretudo, porque logo em seguida me vi cercado de inúmeras pessoas com ferimentos pavorosos. Então eu soube que eles queriam se comunicar e que precisavam fazê-lo através de mim". 

Desde essa primeira experiência, o Sr. Ono passou a integrar o grupo dos sacerdotes, trabalhando com eles na localização de cadáveres que não haviam sido encontrados pelas equipes de resgate. Segundo o grupo, eles tiveram sucesso em localizar mais de 20 cadáveres que estavam perdidos em baixo de toneladas de escombros. Segundo o Sr. Ono, seu talento se deve ao fato dos próprios espíritos avisá-lo onde escavar e onde encontrar os restos soterrados.

Um outro caso, ainda mais incrível envolvia uma senhora de 56 anos que se dizia acometida por um espírito amargurados que a culpava por ter escapado do desastre. A pobre mulher, passou a sofrer com surtos de violência nos quais tentava agredir pessoas que haviam sobrevivido chamando-os de "malditos" e dizendo que "eles mereciam estar mortos". Em uma ocasião, ela correu pelas ruas gritando que "todos precisavam morrer para que os espíritos tivessem paz". A mulher foi capturada pelo marido e filhos e precisou ser sedada. Em uma cerimônia de exorcismo, ela gritou que podia ver uma multidão de pessoas que haviam morrido na inundação:

"Eles estão cobertos de lama! Estão cobertos de sujeira e molhados! Eles estão com frio e apavorados! Estão furiosos por terem morrido! Eles nos odeiam porque nós estamos vivos e eles não!" ela repetia sem parar. Depois de várias sessões de exorcismo, os sacerdotes decretaram que ela estava livre da influência dos espíritos e que estes haviam finalmente se dissipado.


O sacerdote Kaneda contou ter participado de vários exorcismos semelhantes envolvendo espíritos do tsunami. "Nem todas as pessoas mortas durante a tragédia eram capazes de superar o terror que experimentaram nos últimos instantes de suas vidas terrenas. Isso fez com que eles perdessem parte de sua humanidade e se tornassem ressentidas", explicou ele.

Um dos casos emblemáticos, segundo Kaneda envolvia uma mulher chamada "Hira" que dizia sentir "pessoas diferentes habitando seu corpo" nos meses posteriores ao tsunami. A mulher ficou em coma por uma semana após a tragédia e sobreviveu quase por milagre. Segundo ela, quando despertou de seu coma, sentiu imediatamente a presença de vários fantasmas que a seguiram quando ela retornou ao seu corpo. "Era como se eles tivessem se apegado a mim e quisessem continuar vivendo dentro do meu corpo", descreveu a mulher. 

Keneda conseguiu exorcizar esses espíritos que na sua avaliação eram pessoas confusas e furiosas que ainda tinham assuntos a resolver na terra dos vivos. "O desastre condenou à morte todo tipo de pessoa. Boas e ruins! Algumas pessoas eram naturalmente egoístas e estavam ressentidas por terem morrido, culpando os vivos pela sua tragédia. Muitos deles após uma sessão aceitavam partir, outros se apegavam aos vivos como a única forma de continuar aqui. Esses causavam mais danos".


Kaneda explicou que pelo menos 20 espíritos habitavam o corpo de "Hira" simultaneamente. Um desses pertencia a um homem de meia idade que queria saber onde estava sua filha e se ela havia sobrevivido. Ele disse que ela estava em casa e que o lugar havia desaparecido com a tragédia. Quando Kaneda descobriu que a menina estava viva, o espírito aceitou partir. Outros não eram convencidos tão facilmente, o espírito de um rapaz era tão agressivo que foi capaz de usar o corpo de "Hira" para atacar o sacerdote e desferir nele uma mordida. Quando ele conseguiu fazer o espírito deixar o corpo ele teria dito:

"Mas o caminho para a luz é tão pequeno, e há tantas pessoas ao meu redor. Eu não consigo sequer ver o caminho que devo seguir".

Outra exorcista a agir desde os primeiros dias após a tragédia, era a monja Kansho Aizawa que afirmava ser capaz de ver os espíritos de centenas de pessoas vagando sem destino pelas ruas destruídas: "Era como ver uma cena de filme de horror. As pessoas feitas em pedaços, com o corpo desfigurado, sem braços ou pernas, vagando e se arrastando sem destino, perguntando para onde deveriam ir, o que deveriam fazer", contou ela. "Foi algo aterrorizante, mas também extremamente comovente. Depois de presenciar aquilo decidi que algo precisava ser feito do contrário eles vagariam para sempre nessa condição".

A explicação para toda essa comoção no mundo espiritual depende da fonte consultada. Para os que acreditam em tal coisa, um fantasma sem descanso vaga indefinidamente até cumprir sua sina. No folclore japonês, essas aparições são chamadas de Gaki, ou "fantasmas famintos", pois acredita-se que eles sentem um apetite por tudo que está vivo e passam a se alimentar da energia dos vivos para se perpetuar. Um Gaki se forma quando ocorre uma morte traumática com violência e dor, com angústia e medo. Eles passam a viver próximo dos vivos, em uma espécie de limbo para o qual se retiram na maior parte do tempo, contudo, em certos lugares ligados ao seu trauma, eles podem se materializar e ser sentidos pelos vivos, em especial pessoas com dom para sensitividade.


Para aqueles que buscam uma explicação mais científica e racional, é possível que muitas pessoas que experimentaram o desastre tenham desenvolvido uma espécie de desordem pós-traumática (PTSD). Nesse caso, os fantasmas seriam meras projeções mentais ou alucinações causadas pelo terror e stress que eles testemunharam e suportaram, ao invés de presenças sobrenaturais do outro lado. De fato, várias instituições de apoio psiquiátrico conduziram estudos a respeito de pessoas que tiveram perdas significativas e que passaram a sofrer de PTSD. Os estudos demonstram que existe a tendência de se experimentar tais alucinações, mas nada explica a atividade sobrenatural que outros parecem manifestar.  

Não resta dúvida que a total aniquilação de cidades e de seus habitantes pela tragédia de 2011 no Japão deixou profundas marcas nas mentes e no espírito dos sobreviventes. O horror em estado puro, a morte e a destruição inexorável, são algo que apenas o tempo poderá curar, e mesmo assim, existe o temor de que tais tragédias possam se repetir já que a região é suscetível a esse tipo de distúrbio natural.  

Será que assombrações e fantasmas são capazes de se formar após um incidente de dor e tristeza extremos como esse? Existem mais do que meras sombras vagando pelas ruas das cidades em reconstrução? Fantasmas estão fadados a permanecer espreitando nos lugares onde costumavam ir quando vivos? Se a resposta for sim, até quando? São muitas as perguntas sem resposta.

Se as ruínas do tsunami guardam mistérios sobrenaturais ou não, é provável que nunca saibamos. É entretanto, suficientemente assustador, olhar para as imagens da devastação e imaginar quantas pessoas perderam suas vidas em meio a essa tragédia. Mas pior ainda, é imaginar que algumas dessas vítimas podem continuar a sofrer...

...para sempre!  

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Caixa do Tempo - Minha caixa personalizada de Tales from the Loop


Fala aí pessoal,

Semana passada eu escrevi uma resenha bastante longa, dividida em duas partes a respeito de Tales from the Loop, uma das mais fantásticas ambientações lançadas esse ano.

Fazia tempo que eu não ficava tão empolgado por um RPG novo. Loop rapidamente se tornou um cenário que me agradou, não só pela proposta de jogo, mas pela simplicidade, pelas regras que permitem improviso, pela senso de nostalgia e por tantos outros fatores que nem preciso enumerar.

Gostei tanto do Loop que decidi fazer algo diferente, que destacasse o jogo e que o tornasse mais do que simplesmente um outro livro na prateleira. Eu queria algo que desse a ele a importância que ao meu ver ele merece.

Foi assim que surgiu a ideia de fazer uma caixa onde ele pudesse ficar guardado. A ideia veio da lembrança de infância, quando eu tinha uma caixa onde costumava guardar coisas que realmente eram importantes pra mim na época (meus Comandos em Ação, adesivos bacanas, figurinhas carimbadas, quadrinhos etc.)

A Caixa deveria seguir esse mesmo princípio, servir para guardar material de jogo e objetos que remetem diretamente ao universo dos anos 1980, o pano de fundo para os Mistérios de Tales from the Loop.

Engraçado que a medida que a coisa foi crescendo, foram surgindo outros elementos que eu fui acrescentando à caixa e que deram a ela o flavor exato que eu estava procurando. Ela deveria ser uma caixa de tralhas de moleque e acho que no fim das contas ficou bacana.

Uma vez que fotos valem mais do que mil palavras, aqui estão VÁRIAS fotos de como ficou o resultado final.


A caixa ao meu ver tinha que ser de madeira e eu escolhi essa textura de engradado para ficar dentro da proposta do jogo. Desde o início eu achei que o azul seria a cor ideal para os itens e para a caixa, já que essa cor está não apenas na capa do livro, mas em boa parte da arte no interior.


Eu gostei desses adesivos com coisas que remetem aos anos 80 e que concedem à tampa uma imagem bem coisa de moleque. Tudo colado sem muita cerimônia, colado de qualquer jeito.


Esse adesivo onde diz "Perigo - Pessoas não autorizadas devem ficar longe" é bem dentro do espírito Tales from the Loop e algo que um pequeno investigador dos mistérios colocaria na tampa de sua "caixa de segredos".


A Caixa serve perfeitamente para guardar o livro básico e mais um monte de tranqueiras que servem de "eastern eggs" da ambientação.


Aqui está o material todo que fica guardado dentro da caixa.


E a maneira como tudo fica acondicionado no interior dela. A caixa ficou meio pesada, cerca de 5 quilos, mas nada fica fora de lugar ou chacoalhando. De qualquer forma, preferi colocar o livro em um plástico bolha e as fichas/papéis em pastas de plástico. No fim, ficou tudo bem organizado.


Aqui o livro e o mapa da cidade de Boulder onde se passa a minha campanha. Eu encontrei o mapa na internet e mandei imprimir colorido em tamanho A5. É possível que eu mande fazer outro para que um mapa fique com os jogadores e eles possam escrever nele no decorrer da aventura e marcar onde estiveram e o que acharam em cada localidade.


Tem um mapa das Instalações do Loop na Suécia. Eu penso em fazer uma aventura que se passe no Loop europeu com o grupo. Talvez uma espécie de intercâmbio ou deslocamento espacial, no Loop tudo é possível.


Esses são os painéis do Escudo de Tales from the Loop que eu fiz. Para isso, costumo usar um dos escudos modulares cedidos pelos jogadores. Basta colocar as imagens no lugar e pronto. Como as regras do sistema são bem simples, nem precisa de muito material do lado do narrador, sobrando espaço para meus apontamentos.


Essa caneca eu mandei fazer com base em uma imagem que encontrei na internet. Ficou muito legal e o acabamento ficou perfeito com o título do jogo. Adorei esse trabalho! 


A caneca não serve para muita coisa, mas como decoração no centro da mesa para lápis e material para escrever fica perfeito!


Esse potinho não ficou bem como eu queria. A ideia era ter um copo para rolamento dos dados. Eu coloquei papel veludo preto no interior, para que não faça muito barulho e um adesivo com o logo do jogo ao redor para personalizar.


Não ficou ruim, mas acho que eu vou dar mais uma caprichada para ficar mais ao meu gosto. Eu pretendo dar uma mexida nos dados e personalizar um set azul específico para Tales from the Loop. Já até encontrei os dados lisos e pretendo colocar em uma das faces o símbolo da Riksenergi.


Esse prop ficou bem legal, é um texto de boas vindas aos "Anos 80 que nunca existiram" com uma explicação básica a respeito da ambientação e qual a dinâmica no jogo. 


O envelope acompanha uma série de imagens - impressas com qualidade de fotografia, da sensacional arte de Simon StälenhagO prop serve como uma espécie de álbum de apresentação do cenário para os jogadores iniciantes.



As fotos ficam todas guardadas no interior desse envelope tipo convite de casamento.


Esse é outro prop que me agradou bastante. Um diário de campanha para que possam ser anotados os principais acontecimentos durante as aventuras e os jogos. Eu usei um caderno Mead Composition (que é o mais usado por estudantes nos Estados Unidos). Colei na capa o logo do jogo e uma série desses adesivos baratos de caderno para dar uma "cara anos 80".

Adorei também os adesivos de "confidencial".


Dentro do Diário - que ainda está vazio, tem espaço para colar fotografias e handouts que vão sendo coletados no decorrer de cada mistério. Na contracapa, estão os "Princípios do Loop" que constituem as diretrizes para jogar o cenário.


Mas oq ue seria de Tales from the Loop sem a trilha sonora anos 80? A década que nos deu algumas músicas inesquecíveis tinha que fazer parte da caixa. Então pedi para um colega que gravasse uma fita com "hits" da época que incluem Michael Jackson, Madonna, A-Ha, Billy Idol, The Clash e tantos outros que marcaram época. Valeu, Flávio! 

Tudo bem que o mais provável é que usemos o Spotify para fornecer a trilha original, mas não custa ter a versão em fita k-7. Por sinal, uma fita só, acabou sendo pouco e acabamos recorrendo a um "volume 2" para incluir mais alguns hinos dos anos 80.


Essa caixa menor serve para guardar os props e handouts que ão forem colados no Diário de Campanha. Eu gosto dessas caixinhas para guardar pistas e documentos, dá um ar bacana e fica bem mais organizado que deixar tudo solto.


Sem falar que dá para guardar no interior as fichas de Luck dos personagens. Luck é algo extremamente importante no decorrer do jogo e como o uso é frequente seria mais bacana distribuir fichas.

Eu pensei primeiro em usar fichas de fliperama, mas quando vi o preço delas no mercado livre, desisti. Depois pensei em usar uma ficha amarela na qual pudesse desenhar o Pac Man, infelizmente o resultado não ficou dentro do esperado...


No final das contas, recorri a essa ficha de pôquer na qual colei de um lado um pac man e no verso um fantasma. Mais anos 80, impossível!

Os botons do cubo mágico e do Genius servem para identificar os personagens que já usaram a música de seu personagem durante a sessão, uma das regras da casa que eu acrescentei ao jogo. Sempre que um jogador pede sua música favorita (limitado a uma vez por sessão e apenas um jogador por cena) ele recebe automaticamente três dados bônus para um rolamento. 

Mas o que seria dessa tralha toda se a gente não jogasse.

Sendo assim, fizemos demos o ponta-pé inicial da campanha Quatro Estações da Ciência Estranha, com a aventura "Summer Break and the Killing Birds" (Férias de Verão e os Pássaros Assassinos).


A transmissão, na íntegra, feita ao vivo com o Velho Crânio, está na página do grupo Tales from the Loop Brasil, entra lá para dar uma olhada! 


É quem quiser participar do grupo, é só pedir acesso que eu coloco para dentro!

terça-feira, 7 de novembro de 2017

A Execução de Ketchum - O mais medonho enforcamento do Velho Oeste e uma maldição



O Velho Oeste não foi, de modo algum, uma época pacífica. Ele estava repleto de notórios foras da lei e pistoleiros que não pensavam duas vezes antes de sacar seus revólveres e disparar contra qualquer um que os provocasse.

Existem incontáveis histórias de crimes e mistérios que não foram solucionados no Velho Oeste, e Hollywood sem dúvida tentou romancear o período. Glorificado pelos filmes de cowboys, vários homens da lei, bandoleiros, caçadores de recompensa e mal feitores se tornaram parte da cultura pop e suas histórias, muitas vezes exageradas ou incrivelmente imprecisas, continuam a cativar audiências.

Hoje em dia existem lugares nos Estados Unidos onde é possível experimentar a mística lendária do Velho Oeste em cidades que servem como palco para encenações e reconstituições históricas bastante convincentes de como era viver na Fronteira. O Estado do Novo Mexico é um lugar especialmente propício a esse tipo de lugar, com direito a atores que se fazem passar por personalidades como Elfago Baca, Buckshot Roberts, Pat Garrett, Billy the Kid, Charlie Bowdre, e finalmente “Black Jack” Ketchum.

E esse artigo é justamente a respeito de Ketchum. Ele é o protagonista de uma história macabra e aterrorizante ocorrida no povoado de Clayton, Novo México, local que talvez tenha assistido um dos mais desastrados enforcamentos da história.

Thomas Edward Ketchum teve uma infância difícil. Ele perdeu seus pais quando ainda era muito jovem e teve de trabalhar como cowboy com seu irmão em vários ranchos do Texas e Novo Mexico. Entretanto, a carreira de cowboy não ia durar muito, já que Ketchum decidiu em 1892 abraçar o  perigoso caminho do crime. 

O tempo como cowboy, no entanto, foi bastante útil; ele aprendeu a montar e passou a conhecer como a palma da mão a maioria dos caminhos e trilhas no Território do Novo Mexico. Junto com seu irmão Sam e vários outros comparsas, ele criou uma quadrilha que foi bem sucedida em uma série de roubos a banco. A quadrilha chegou a roubar um cofre, explodindo-o para coletar mais de 20 mil dólares em seu interior - o que na época era uma fortuna considerável. 

Ketchum ganhou fama quando matou John “Jap” Powers, no Condado de Green, Texas. O incidente foi bastante noticiado uma vez que "Jap" era um notório pistoleiro, conhecido por ter liquidado três homens da lei em Yuma anos antes. Depois desse incidente, Ketchum e sua gangue decidiram deixar o Novo Mexico, temendo que suas cabeças tivessem sido colocadas à prêmio. A preocupação dele era bastante justificável, vários caçadores de recompensa estavam no seu rastro, sobretudo depois que a recompensa por ele, vivo ou morto, atingiu 5 mil dólares.

Antes porém, o bando planejou um último esquema que lhes garantiria uma "aposentadoria" com estilo no México. Em agosto de 1899, Ketchum e seus homens decidiram roubar um Trem de Passageiros que transportava uma valiosa carga de moedas de ouro. Infelizmente para a quadrilha, a fama de Ketchum colocou tudo a perder. Um dos condutores à bordo reconheceu o bandido de um cartaz de procurado que ele havia visto recentemente. O homem sacou sua arma e disparou acertando o cotovelo direito do pistoleiro. A reação da gangue foi a pior possível, todos puxaram suas armas e começaram a atirar para todo lado dentro do trem em movimento. O tiroteio resultante, conhecido com "Grande Tiroteio do Trem", deixou um saldo de quatro mortos e nove feridos. 

Mesmo atingido Ketchum conseguiu escapar, mas foi perseguido por uma posse fortemente armada que o encurralou. O bandoleiro havia perdido muito sangue e acabou se rendendo. Ele foi levado para a cidade de Clayton e julgado enquanto ainda se recuperava dos ferimentos. O juri decidiu que "Black Jack" Ketchum era culpado e ele foi sentenciado a morte por enforcamento.

Black Jack Ketchum

Parecia que o destino do fora da lei estava traçado e ele seria executado, como muitos outros homens que partilhavam de seu violento estilo de vida. Entretanto, a existência de Ketchum teria mais um capítulo que capturaria a imaginação de historiadores e entusiastas do Velho Oeste.

Os oficiais em Clayton não tinham muita experiência com a prática de executar criminosos através de enforcamento. Ketchum havia sido o primeiro criminoso na cidade sentenciado a morrer dessa maneira. A inexperiência deles fez com que o pobre criminoso morresse de uma forma incomum que assombrou a todos que testemunharam o horrendo incidente.

A morte por enforcamento pressupõe que o peso da vítima durante a queda no cadafalso, provoque um tranco, que é suficiente para quebrar a vértebra do pescoço. Como resultado, a vítima morre imediatamente. "Um estalo e é o fim", diziam os jornais na época, descrevendo esse tipo de execução comum em todo país.

As autoridades de Clayton adiaram o enforcamento várias vezes, pois não havia um carrasco com prévia experiência na cidade. Finalmente, alimentado por rumores de que os velhos amigos de Ketchum planejavam soltá-lo da cadeia, um delegado foi escolhido para fazer o papel de executor. Dizem que os delegados tiraram no palitinho para ver quem se ocuparia do serviço indesejado. O enforcamento foi marcado para abril de 1901.


Ketchum enfrenta o cadafalso em Clayton, New Mexico

Quando chegou o dia, o enforcamento havia se tornado a maior atração da região, com várias pessoas vindo de longe para assistir ao acontecimento. Jornais da época descreviam a execução como um verdadeiro acontecimento: hotéis lotados, jornalistas com máquinas fotográficas, a presenca de juízes distritais e até do governador do Território vindo para prestigiar a execução. O patíbulo foi montado na rua principal que mais parecia uma feira livre com barracas de frango frito, venda de lembranças e todo tipo de atividade comercial. Um formigueiro barulhento de pessoas ansiosas para ver a morte do perigoso criminoso Ketchum. Talvez eles não ficassem tão ansiosos se soubessem o que estava para acontecer.

Na noite anterior ao enforcamento, o oficial designado para a tarefa testou a corda com um saco de areia de 100 quilos, mas esqueceu de removê-lo. O peso fez com que a corda ficasse rígida como um arame. O tipo de corda usado também não era o mais adequado para aquela função, ela era fina demais, embora fosse extremamente resistente.

Quando chegou o grande momento, as pessoas se colocaram diante do patíbulo e prenderam a respiração. Ketchum dispensou a venda e proferiu suas últimas palavras enquanto a corda era amarrada em volta de seu pescoço. Ele teria dito que não se arrependia de sua vida e que estava apenas sobrevivendo. Alguns afirmaram que ele criticou a presença de mulheres e crianças na execução: "isso não é uma festa de igreja", teria dito.

O Juiz que emitiu a sentença leu os altos e houve uma salva de palmas. Precisamente às 12 horas, o chão abaixo de Ketchum se abriu e ele caiu no cadafalso. Mas então algo saiu muito errado: a combinação da corda inadequada e sua rigidez resultou não em um enforcamento, mas em uma DECAPITAÇÃO.


O horror se espalhou entre os presentes. Gritos e histeria se seguiram, pessoas desmaiaram e outras não aguentaram a cena e vomitaram. Testemunhas afirmaram posteriormente que o corpo de Ketchum caiu de pé e ainda conseguiu dar dois passos, sem a cabeça (!!!) antes de desabar no chão. A cabeça rolou pelo chão, com os olhos revirando de um lado para o outro, a boca aberta em um grito silencioso.

A praça foi evacuada às pressas, enquanto cabeça e corpo eram recolhidos pelos confusos homens da lei que tentavam controlar o caos que se seguiu. Antes do enterro, o médico local foi chamado para costurar a cabeça de Ketchum em seu pescoço. Em seguida ele foi levado para o cemitério e enterrado em uma sepultura comum marcada apenas com uma tábua de madeira onde estava escrito:

"Aqui jaz o azarado Black Jack Ketchum, costurado em um, depois de dividido em dois".

Como não poderia deixar de ser, um caso tão mórbido acabou criando suas próprias lendas. A pequena cidade de Clayton se tornou famosa pelo ocorrido embora os bons cidadãos não se orgulhassem de sua notoriedade. O fato da cidade gradualmente ter se esvaziado está ligado a vários outros fatores - entre os quais a mudança do curso de um rio, mas muitos afirmavam que a cidadezinha foi de alguma forma marcada pela execução mal sucedida de Ketchum.

Clayton na época das tempestades de areia
Falava-se muitas coisas, desde um mau agouro que atingiu várias pessoas e seus negocios até uma legítima maldição. Verdade ou mentira, meses depois da execução, o médico que costurou a cabeça de Ketchum no lugar, morreu em um acidente estranho proximo do local onde tudo ocorreu. O acidente, segundo alguns envolveu um cabo de aço que se soltou, vindo a decapitar o pobre médico. Muitos dizem que houve exagero nessa história, mas lendas surgem dessa maneira. O delegado responsável pela atrapalhada execução também sofreu um acidente bizarro, sendo arrastado por um cavalo e tendo as pernas quebradas. Ele nunca mais andou direito, e culpava não o acaso ou o animal cujos cascos o atropelou, pelo ocorrido, mas o espírito vingativo de Ketchum.

Não é exagero, entretanto dizer que os juízes distritais presentes na execução, nenhum tenha se reeleito, e que vários desses tenham sido pegos em um esquema de corrupção na virada do século. Dois chegaram a se suicidar. O governador do Território do Novo Mexico foi afetado indiretamente pela morte de sua esposa e filhas em um acidente de carruagem. Para completar, em 1903 vários prédios de Clayton foram consumidos em um incêndio que destruiu boa parte do comércio local. 

Com o tempo, o lugar foi perdendo sua população e em meados de 1918 ele já havia se tornado uma cidade fantasma. As tempestades de areia que castigaram severamente o meio-oeste americano nos anos 1930 terminaram por decretar a derrocada de Clayton que ficava exatamente na região conhecida como Dust Bowl. Em 1957, o que sobrou da cidadezinha foi posto abaixo e novos prédios foram erguidos, mas uma das primeiras providências dos novos moradores foi encontrar onde estavam os restos mortais de Ketchum, enterrados e transferi-los para uma sepultura com seu nome e um pedido formal de desculpas pelo ocorrido.

Desde então, não houve outras ocorrências ligadas a maldição.