quinta-feira, 22 de junho de 2017

Uma Delicada União - O Casamento de Lovecraft e Sonia Greene



Eu sempre tive curiosidade a respeito de quem foi Sonia Haft Greene (cujo nome de solteira era Haferkin), a mulher que casou com H.P. Lovecraft. Ela sustentou Lovecraft financeiramente por dois anos e em uma citação famosa o descreveu com "um amante excelente e adequado", que entretanto, jamais disse que a amava. Infelizmente, não sabemos muito mais do que isso de sua vida.

Pode parecer estranho para os fãs de Lovecraft, mas Greene era uma imigrante judia, nascida na Ucrânia, o tipo de pessoa que Lovecraft culpava pelo declínio da civilização ocidental. Alguém com quem ele jamais poderia se misturar ou aceitar em seu grupo de amigos. A despeito disso, foram bons companheiros ao longo de nove anos.

Como então essa mulher se tornou esposa de alguém difícil como H.P. Lovecraft?

De acordo com o biógrafo de Lovecraft, S.T. Joshi, Greene era uma mulher avançada para a época, uma escritora que publicou vários trabalhos, inclusive um conto de horror intitulado "The Invisible Monster" (O Monstro Invisível, também chamado de "The Horror in Martin's Beach" revisado por Lovecraft). Tratava-se de uma pessoa muito ativa, que chegou a ocupar o cargo de Presidente da Associação Unida dos Jornalistas Amadores.


Antes de conhecer Lovecraft, Sonia casou-se com Samuel Greene, um homem bem mais velho com quem teve uma relação turbulenta. Ele alternava episódios de depressão com períodos de embriaguez nos quais a agredia frequentemente. Quando enfim veio a falecer, supostamente cometendo suicídio, ela não lamentou. De sua união sobreveio uma filha, Florence Carol, que, adulta, se tornou uma bem sucedida jornalista. Mãe e filha segundo consta nunca se entenderam bem - a menina defendia o pai, e após uma séria desavença jamais voltaram a se falar. 


Ao contrário de muitas mulheres de sua época, Greene era independente e com uma postura moderna. 

Ela trabalhou por algum tempo como milliner — uma desenhista de chapéus — em uma luxuosa loja de departamento, emprego que lhe garantia estabilidade financeira e permitia que ela viajasse pelo país. Ela alugava um confortável apartamento na então chique vizinhança de Flatbush, no bairro do Brooklyn. Sua estabilidade financeira também permitia que ela fizesse doações esporádicas para vários escritores amadores em começo de carreira. Um de seus passatempos era viajar para participar de convenções (basicamente reuniões onde se discutia temas a respeito de ficção científica e literatura fantástica). Em uma dessas convenções ela encontrou Lovecraft pela primeira vez e ficou atraída pelas suas idéias e conceitos. Lovecraft comentou com um colega que se sentia extremamente à vontade com ela e que a companhia da Senhorita Greene era inspiradora.

No verão de 1922, Lovecraft a convidou para visitá-lo em Providence e segundo consta foi um guia atencioso que lhe mostrou a cidade. Em contrapartida Sonia convidou Lovecraft para conhecer Nova York, pagando suas despesas de viagem. Lovecraft não gostou muito da cidade, mas aproveitou para conhecer na companhia da srta. Greene alguns locais de interesse.

Os dois casaram em 1924, após um estranho namoro de dois anos onde havia pouco espaço para "sentimentalismo barato". O casal decidiu se mudar para Nova York e viver no apartamento de Sonia que era grande o bastante para comportar os dois. Quando o casal passeava pela cidade Lovecraft constantemente demonstrava irritação com os imigrantes que encontrava pelo caminho. Em algumas ocasiões ele preferia andar no centro da rua apenas para não ter de dividir a calçada com "indivíduos detestáveis". Greene contou a um biógrafo que ela própria lembrava ao marido sua origem, mas isso não parecia dissuadi-lo de seu descontentamento com imigrantes. "Você é diferente minha querida", teria dito em mais de uma ocasião.



Que tipo de sentimento uniu pessoas aparentemente tão diferentes cuja única proximidade parece ser a intelectual?

Nós jamais saberemos, pois ela queimou todas as cartas após o divórcio e sua mudança para Cleveland em 1926. Contudo, nós sabemos que Sonia se apaixonou primeiro pela literatura de Lovecraft e suas idéias expressas através de centenas de cartas. Algumas segundo ela com mais de vinte páginas e uma infinidade de assuntos. O que soa como uma versão steampunk de um romance online entre perfeitos geeks.

Os primeiros meses após o casamento foram de aparente felicidade entre o jovem casal. Eles passavam a maior parte de seu tempo juntos, eram companheiros de discussão e visitavam amigos em comum tirando fotografias nas quais transparecia um clima de evidente intimidade. Quando em casa, gostavam de ler, conversar sobre os acontecimentos cotidianos e repassar os textos que escreviam.

Pouco tempo depois, Greene decidiu abrir seu próprio negócio de milinery que foi um fracasso e no qual ela perdeu boa parte de suas economias. Com despesas acumulando ela teve de aceitar um outro trabalho que a obrigava a viajar constantemente, ausentando-se de casa. Lovecraft não ficava satisfeito com essa ausência, e se ressentia dos longos períodos sozinho, embora os aproveitasse para trabalhar de maneira febril nos seus textos. Eles também tiveram de abrir mão do apartamento em Flatbush e se mudar para a vizinhança de Red Hook, ainda mais saturada de imigrantes. 

No último ano do casamento, Greene passou mais tempo viajando à trabalho do que em casa. Lovecraft dizia que o período de solidão era bom para seu ofício e que não ter uma distração em casa era essencial para sua produção literária. Realmente, nesse período Lovecraft escreveu incessantemente, ainda que não tenha conseguido vender muitos de seus trabalhos para a Weird Tales. Passava dias sozinho no apartamento sem ver ninguém, sem receber ninguém, alguns até achavam que ele sofria de alguma doença, tamanho seu comportamento solitário.

A esposa enviava uma espécie de mesada semanal para pagar o aluguel da casa onde ela dormia apenas uma ou duas noites por semana. Lovecraft não aceitava que o dinheiro das demais despesas fosse pago por ela, ao menos isso era seu dever providenciar. Sem um salário fixo, não é de se estranhar que ele vivesse quase exclusivamente de biscoitos, feijão em lata e sanduíches. Nos finais de semana ele comprava algo para a esposa ou para fingir que a despensa estava cheia. 

Lovecraft comentou em uma carta que esse foi um momento delicado de seu casamento. Mesmo assim ele não contemplava a ideia de abandonar a literatura em favor de um emprego estável, o que Sonia aconselhava que ele fizesse. É possível, que as maiores discussões entre eles envolvesse esse tópico. Percebendo que não conseguiria fazer o marido abdicar de sua paixão pela escrita, ela terminou por desistir de persuadi-lo. 

O casal decidiu se divorciar amigavelmente e de comum acordo. Lovecraft retornou para a casa de suas tias na Nova Inglaterra onde ainda tinha um quarto disponível. Para muitos, ele estava aliviado por deixar para trás o caldeirão cultural de Nova York e lamber as feridas emocionais em sua amada Providence. Há conjecturas de que os dois já não tinham mais nada em comum e que a separação acordada demonstrava que de fato a relação havia ruído fazia muito tempo.

Depois da separação Sonia Greene partiu para o Oeste e tentou a sorte na Califórnia, uma terra de oportunidades para pessoas empreendedoras como ela. Em 1936 ela casou pela terceira vez, embora jamais tenha se separado formalmente de Lovecraft que nunca homologou os papéis do divórcio. Até onde sabemos, os dois não se viram mais, e quando recebeu a notícia da morte de seu ex-marido ela ofereceu dinheiro para ajudar nas despesas do funeral.

Sonia viveu seus últimos anos como viúva em um lar para senhoras, ela faleceu em 1972 aos 89 anos de idade. 

Recentemente surgiram boatos de que Sonia teria participado de círculos ocultistas e de clubes de debate sobre o tema. Alguns afirmavam até que foi Sonia quem sugeriu a criação do Necronomicom com base no Livro Egípcio dos Mortos. Rumores davam conta de que ela teria conhecido o ocultista inglês Alesteir Crowley com quem teria desenvolvido um caso amoroso. Mas esses são boatos infundados.

Já bastante idosa Sonia concedeu entrevistas a respeito de seu ex-marido e ainda demonstrava afeto à sua memória.

domingo, 18 de junho de 2017

A Noite do Cão Negro - Uma lenda aterrorizante das Ilhas Britânicas


Um vento forte soprava através do pântano e o ocasional ribombar dos trovões podia ser ouvido à distância. A tempestade não ia demorar a cair. 

Aquela não era uma boa noite para andar sozinho, mas Jack havia ficado tempo demais no pub e tinha que voltar para sua fazenda. Cedendo às suas superstições, ele decidiu tomar a estrada principal ignorando os atalhos que conhecia com a palma de sua mão. Melhor não arriscar cair em um charco ou afundar num lodaçal.

Uma ventania especialmente forte soprou e quase o derrubou no chão. Lá no céu, o som dos trovões ecoou, revelando as montanhas e os cumes envolvidos por nuvens carregadas. Jack pensou consigo mesmo que aquela era uma noite dos diabos e que talvez fosse melhor retornar para o vilarejo. Ninguém iria rir dele ou chamá-lo de covarde por isso. A tempestade seria forte e ser pego no meio dela poderia ser perigoso. Pensou consigo mesmo onde poderia passar a noite, mas então, ouviu um som estranho, um ruído longo como um rosnado gorgolejante. Não vinha do alto, mas de trás dele.

Jack se voltou na direção de uma trilha de terra e percebeu uma sombra se movendo com o canto dos olhos. Seu coração bateu com força, descompassado. O medo primitivo o paralisou por um instante. Era o maior cão que ele já havia visto!

Ele sabia que não haviam cães selvagens naquela região. Ele havia vivido toda sua vida ali e nunca ouviu falar de um animal daquele porte. A coisa era enorme! De onde ele havia saído? A trilha de terra batida era estreita demais para comportar aquele bicho imenso. Adiante, não havia nada a não ser algumas fazendas abandonadas e velhos moinhos em ruínas. Ninguém para ajudá-lo.  

Jack pensou que um cachorro teria medo de sair em uma noite de tempestade como aquela. Cães podem ficar raivosos quando se sentem ameaçados, por isso ele resolveu observar o animal com cuidado. Mas a fera não parecia assustada. Ele era grande como um cavalo. Preto como a noite, com uma pelagem selvagem e desgrenhada. Os olhos da besta refletiram a luz da lua, como os de qualquer cachorro, mas havia algo de perturbador naquele animal em particular. Seus olhos eram inteligentes e injetados com fúria.

O homem deu um passo vacilante para trás, os olhos fixos na besta. O animal rosnou mostrando as presas mas não se moveu um centímetro. Ele parecia uma gárgula de pedra, concentrada em sua presa e prestes a adquirir vida à qualquer momento, correr até ele, fazê-lo em pedaços. 

Para chegar à sua fazenda, Jack teria de passar pelo animal monstruoso. Ele deu um passo e a criatura rosnou novamente, retorcendo os lábios e arreganhando os dentes como se ponderasse a respeito de avançar e acabar com aquilo de uma vez por todas. Os olhos faiscavam, como se ele estivesse saboreando o momento. Jack deu mais um passo e se encolheu pela lateral da trilha. Evitou movimentos bruscos entrando no meio de arbustos e espinheiros que cutucaram suas costas. Jack sabia que qualquer movimento incerto poderia ser o seu último.

Felizmente ele conseguiu contornar o monstro e continuou andando lentamente sem tirar os olhos do animal que às vezes deixava escapar um rosnado ameaçador. Depois de alguns passos vacilantes, ele começou a correr sem olhar para trás. Ele sabia que era o Cão Negro das lendas.

É claro, ele já tinha ouvido falar do Cão Negro. Todos já tinham ouvido falar da fera mortífera que assombrava o sul das ilhas britânicas. Ele lembrava de ter ouvido a lenda quando era criança, contada pelo seu avô. Recordou as recomendações feitas pelos mais velhos para aqueles que tivessem o infortúnio de cruzar o caminho da besta.

Corra e não olhe para trás. 

Não diminua sua corrida.

Aconteça o que acontecer, continue correndo.

Jack já havia ouvido essa história muitas vezes. O Cão Negro vagava pelos pântanos nas noites sem lua. Ele era o responsável pelo sumiço de pessoas que andavam sozinhas através das charnecas lamacentas e pântanos de água estagnada. Suas vítimas jamais chegavam ao seu destino. Sumiam sem deixar vestígio e nunca eram encontrados. Mortas pelo Cão Negro!   

A ponte que cruzava o riacho demarcando os limites da cidade estava logo adiante. Jack lembrou de um detalhe a respeito da lenda: se ele conseguisse atravessar água corrente, estaria à salvo. O Cão Negro não podia segui-lo além daquele ponto. Seu coração martelava. Ele continuou correndo. Mais. Rápido. Mais. Rápido.

Ele viu a ponte logo adiante. Os pés de Jack logo estariam sobre as pranchas de madeira da ponte e ele se sentiu um tanto idiota. Correndo como uma criança noite adentro, tudo por causa de uma tempestade. Deve ter sido sua imaginação! Um cão não poderia ser tão grande. Estava imaginando coisas! Havia bebido demais. Tinha de haver uma explicação razoável. Jack sorriu confiante. Ele estava quase salvo, teria uma bela história para contar amanhã no pub. Os outros ficariam impressionados. Ele havia vencido o Cão Negro na corrida.

Então um trovão ainda mais estrondoso transformou a noite em dia. Por um momento o trecho da estrada apareceu claro diante dos seus olhos e em seguida, um trovão aterrorizante foi ouvido anunciando a tempestade que começou a cair.

Jack teve uma sensação ruim. A boca ficou seca. Suas pernas pareciam de borracha. Um arrepio correu pelas costas como uma corrente elétrica. A sensação da presa descobrindo a presença ameaçadora do predador em seu encalço.

E tão certo quanto a noite é escura. Tão óbvio quanto o medo que o dominava. Tão claro quanto aquela tempestade cairia. A fera negra surgia diante dele, saltando para matá-lo.

Uma noite dos diabos. 

"A Noite do Cão Negro"
Folclore das Ilhas Britânicas

*     *     *


Humanos e cães tem uma relação muito longa e íntima. Desde tempos pré-históricos, as duas espécies vivem juntas e caçam juntas. Cães foram uma das primeiras espécies de animais a serem domesticados pelos humanos: embora o termo "domesticar" não parece adequado para encompassar a incrível ligação que se estabeleceu entre homens e cães ao longo de milhares de anos.

De alguma forma, em face de nosso grande amor pelos cães - ou talvez por conta disso, a visão de um cão furioso e agressivo causa um tipo de medo primitivo. Ser confrontado com um cão feroz ou mesmo por um cão de grande porte com o qual não estamos familiarizados, causa inegável temor. Aquele que deve ser o amigo, o guardião, o companheiro se torna uma ameaça.

Dado esse sentimento a respeito de cães, não é de se surpreender que o folclore de vários povos do mundo possua histórias sobrenaturais a respeito de tais animais. Um dos mais duradores e disseminados exemplos de folclore nesse sentido se refere a lenda do Cão Negro (Black Dog), também chamado de Cão do Inferno (Hell Hound).   

Sob vários disfarces, essa criatura sobrenatural espreita em cemitérios, estradas, ruínas e pântanos pela Grã-Bretanha e pela Europa ocidental. Imagens do Cão Negro estão muito presentes no folclore e na literatura britânica. Sir Arthur Conan Doyle tomou emprestada a lenda em 1902 para uma das aventuras mais conhecidas de Sherlock Holmes, O Cão dos Baskervilles ("The Hound of the Baskervilles"). Em Dover o mítico "Cão Feroz das Estradas" aterrorizava os viajantes que insistiam em pegar os caminhos tortuosos do sul da Inglaterra. Na Espanha existem lendas sobre grandes cães demoníacos que atacam peregrinos que seguem pelas rotas conduzindo a Santiago de Compostela. Na França, o uivo de um cão negro simbolizava má sorte, já a visão do cão negro representava morte iminente. Agatha Christie escreveu um conto sobrenatural a respeito de um enorme Cão Fantasmagórico que matava em Cornwall ("The Hound of Death", 1912). Do outro lado do Atlântico, o guitarrista de blues Robert Johnson contava ter feito um pacto com o diabo numa encruzilhada. O demônio havia surgido para ele na forma de um Cão Negro. 


A lenda do Cão Negro encontra similaridade com as histórias de lobisomens e aparece em contos de fada. Hans Christian Anderson escreveu a respeito deles em "The Tinderbox". Em vários contos, o Cão Negro era o monstro original, que gradualmente foi sendo substituído pelo lobo mal. 

Mais do que uma fera, o Cão Negro passou a representar também um estado de ânimo. Winston Churchill costumava se referir à sua depressão crônica como "o Cão Negro sobre o meu ombro", e qualquer um padecendo do mesmo mal se referia a melancolia como resultado da presença de um Cão Negro. O termo "Noite do Diabo" também ficou intimamente associado a tempestades fortes e trovoadas. No sul da Inglaterra o termo Noite do Cão Negro ("Night of the Black Dog") se refere a uma noite chuvosa e trevosa, escura e assustadora. Uma daquelas noites em que é melhor nem sair de casa. Considerando que era em noites de tempestade e escuridão que tradicionalmente o Cão Negro vagava pelas estradas, faz muito sentido! 

A base de todas essas histórias e mitos é sempre a mesma. A existência de um imenso Cão Negro de origem sobrenatural que aparece e desaparece misteriosamente trazendo medo, caos e muitas vezes a morte. Em algumas variantes da lenda, o animal é a encarnação de um assassino, executado pelos seus crimes cometidos em vida - Stephen King usou esse conceito ao escrever seu clássico "Cujo". Em outras versões, o Cão Negro é um ser feérico ou uma força elemental.    

Os nomes variam muito: Barghest, Galleytrot, Hell Hound, Padfoot, Shuck, Snarleyow, Striker, Trash, Wish ou Whist Hound, Yell ou ainda Yelp Hound – para mencionar apenas alguns. Eles tem muitos objetivos: profecia, vingança, carnificina, caçar ou meramente alertar; mas eles tem sempre em comum o fato de serem ameaçadores, perigosos e sempre foram levados muito a sério. 


Os Cães Negros eram vistos como guardiões de cemitérios ou de campos de batalha, onde muitos cadáveres repousavam. Durante a sangrenta Guerras das Rosas e no decorrer da Guerra dos 100 anos, os Cães Negros eram vistos como Guardiões de valas e trincheiras em que cadáveres de soldados eram sepultados sem identificação ou lembrança. Para evitar que tais animais surgissem, soldados colocavam sobre as sepulturas, lápides improvisadas identificando quantas pessoas eram sepultadas num determinado local, como morreram e quando. Essa prática se estendeu ao longo dos séculos, sendo praticada nas Guerras Napoleônicas, chegando até a Grande Guerra. Ironicamente, não há nenhum grande conflito tendo como palco a Europa, em que a sombra do Cão Negro não tenha sido lembrada. 

A Lenda do Cão Negro chegou aos Estados Unidos na forma do "Grim", um cão de origem sobrenatural que protegia cemitérios, em particular aqueles usados para sepultar os escravos no Sul. O Cão Negro se erguia para guardar as lápides e evitar que os ossos dos escravos fossem perturbados. Em uma lenda popular, um regimento de soldados negros que lutou pela União, era enterrado num cemitério do sul e exumado por soldados confederados. Pouco depois de perturbar o descanso dos soldados, um enorme Cão Negro surge para vingar a afronta matando os responsáveis um por um. Ainda segundo a lenda, pessoas que exploravam esses cemitérios, após o cair da noite se arriscavam a despertar a fúria do Cão Negro. É evidente que nesse caso os cães eram vistos como guardiões  espirituais, protegendo os mortos da maldade dos vivos.  

No folclore de vários povos, o Cão Negro cumpre a função de Sentinela dos Mortos, mas ele acumula também a função de Mensageiro de Portentos Sobrenaturais. Em algumas crenças do sul dos Estados Unidos, encontrar um Cão Negro num cemitério durante a madrugada garante um canal de comunicação com o Mundo Espiritual. Na Península Ibérica, existe a crença de que dar três voltas ao redor de um cemitério numa noite sem lua invoca um Cão Negro e este age como uma espécie de mensageiro carregando avisos para os espíritos. Há ainda a lenda de que um Cão Negro assim invocado pode ser compelido por um feiticeiro a assassinar seus desafetos. Essa lenda, muito difundida em Portugal foi trazida para o Brasil colonial e está descrita até no Livro de São Cipriano.


A lenda do Cão Negro é amplamente conhecida e presente no folclore mundo à fora. Pessoas que vivem em áreas rurais ouvem tais histórias desde a infância e se encarregam de levá-las para as próximas gerações. Longe de ser uma lenda obscura de tempos antigos, as narrativas sobre o Cão Negro continuam vivas no imaginário popular. Na Grã-Bretanha, berço de muitas delas, continuam sendo muito populares, sobretudo em Cornwall, Devon e Dartmoor, regiões repletas de charcos e pântanos que mudaram pouco nos últimos séculos. Avistamentos de Cães Negros não são incomuns, mesmo nos dias atuais, o que faz a alegria de jornais sensacionalistas.

Se os avistamentos dessas criaturas são genuínos encontros com o sobrenatural ou simples engano, confusão e invenção por parte de testemunhas, parece claro que a lenda persiste, muito longe de ser esquecida. Não há como negar que as histórias a respeito de feras assustadoras, negras como a noite, continuam sendo contadas, ganhando notoriedade. 

Enquanto existir o medo do desconhecido, o Cão Negro continuará à espreita.

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Bestas de Dimensões Distantes - Anatomia dos Mastins de Tindalos


Há muitos perigos no Universo profano dos Mitos de Cthulhu, mas poucas criaturas podem ser mais aterradoras do que as entidades hiperdimensionais conhecidas como Mastins de Tindalos.

Por muito tempo, estudiosos da mitologia ancestral discutiram se haveria uma raça inteira dessas entidades ou apenas uma delas responsável por todas as tragédias e desgraças associadas a eles desde o início dos tempos. A maioria dos teóricos compreende que eles compõem uma espécie ancestral, tão antiga quanto o próprio tempo, ancestral na gênese do universo.

Os gregos clássicos teriam sido os primeiros a ter contato direto com os Mastins, em documentos do século quarto a.C em que Lycenus de Creta descreve o terrível destino de um feiticeiro que teve contato com um desses monstros. Contudo, na antiga Babilônia já existiam descrições de grandes feras sombrias com um corpo esquálido, consideradas como predadores atrozes que "caçavam homens para devorar-lhes a essência". Nos mitos das nações nórdicas, matilhas de grotescos perdigueiros auxiliavam os deuses em suas caçadas e em certas representações eles são descritos como alãos de corpo esguio e ferocidade incomparável. Capazes de empreender sua caçada através dos Nove Mundos, farejando suas presas onde quer que se encontrem. Os Celtas compartilhavam de rumores semelhantes, que contemplavam Cães ferozes que integravam a famosa Caçada Selvagem (Wild Hunt). Os nativos-americanos das nações Caw e Blackfoot possuem em seu folclore várias lendas a respeito de grandes predadores semelhantes a cães que buscam presas sobretudo shamans. De fato, os mitos à cerca de Grandes e tenebrosos cães, é tão difundido pelo mundo que é provável mais de uma dessas lendas se referir especificamente aos Mastins de Tindalos.

O Necronomicon faz menção a eles no raríssimo Kitab Al Azif que menciona esses horrores chamando-os de Aldarwas Fyruz (Literalmente, Mastim Feroz em árabe). Na sua obra mais apocalíptica, o iemenita de Sanaá, Abdul Alhazred, menciona os Mastins com indisfarçável assombro: 

"Dentre as coisas que habitam as passagens através do tempo, uma é mais vil do que todas as outras juntas. O peregrino que se aventura através dos arcabouços das eras, deve estar preparado para tal encontro. E deve tentar evitá-los à todo custo, pois as marés do tempo são o terreno de caça das feras Tind'Losi, o Aldarwas Fyruz".

Tamanho era o receio de alguns místicos em sequer mencionar essas entidades que versões do Necronomicom Grego foram censuradas omitindo as páginas do Al-Azif sobre essas criaturas. Um dos copistas anônimos a serviço de Theodorus Philletas teria sido responsável pela remoção dos trechos. Segundo rumores, ele teria rasgado as páginas e as engolido com cicuta para sepultar o saber profano em seu interior. Séculos mais tarde, quando a múmia desse escriba foi descoberta, trechos das páginas teriam sido achadas ainda legíveis em seu estômago.


Afora o Necronomicon e suas versões, apenas o Manuscritos Pnakóticos faz menção aos Mastins, revelando sua existência aos olhos dos Yithianos, seres famosos por empreender a exploração do tempo. Os Yithianos se referem aos Mastins pelo termo Tindalosianos, que muitos acreditam ser a terra de origem destas misteriosas criaturas. É razoável supor que a Grande Raça, raça alienígena que conquistou esse título por seu domínio temporal, detenha uma extensiva sabedoria a respeito dos Mastins. Certos místicos acreditam que a forma de deslocamento temporal da Grande Raça - usando hospedeiros para receber a consciência yithiana em diferentes períodos de tempo, tenha sido desenvolvida depois de tentativas mau sucedidas de exploração do tempo via deslocamento físico, o que se mostrou por demais arriscado graças a ameaça dos Mastins.

De acordo com um notável ocultista Halpin Chalmers - possivelmente o maior especialista na mitologia dos Mastins, essas criaturas se desenvolveram através de camadas de "tempo angular", enquanto a vida normal tem sua gênese em ondas de "tempo curvo". Essa teoria é extremamente controversa e pouco compreendida. A maioria dos documentos que explicavam a tese de Chalmers se perderam quando ele foi morto - supostamente por uma das criaturas que ele tentava compreender.

Sabe-se, entretanto, que tentativas de viajar através do tempo resultam em uma reverberação nos tecidos da realidade. Essa perturbação parece atrair a atenção dos Mastins de Tindalos que imediatamente se aproximam para investigar. Quando um viajante temporal é percebido, os Mastins o "farejam" e iniciam uma perseguição implacável através das faldas do tempo. Essa perseguição persistente continua até que a presa seja alcançada ou que ela consiga escapar - retornando para seu tempo ou buscando esconderijo em outra era. Presas alcançadas são dilaceradas nas presas da fera. Aqueles que conseguem lograr sucesso na escapada, no entanto, não estão livres de seu perseguidor. Os Mastins são conhecidos por "farejar" suas presas onde quer que elas se encontrem, viajando através do tempo para encontrá-los e os fazer em pedaços. Tamanha é a determinação desses monstros que uma vez iniciada a caçada nada os detém e nada mais tem importância para eles. Um Mastim pode empreender a caçada por semanas e até meses, investigando o paradeiro de sua presa em diferentes períodos de tempo. Existem fórmulas e cálculos de matemática avançada que permitem determinar quanto tempo um Mastim irá demorar para localizar sua presa, tendo como base a quantidade de tempo transcorrido entre o ponto no tempo em que a criatura percebeu seu alvo e onde ele foi parar. Com base nesse cálculo, muitos viajantes temporais tentam traçar uma estratégia para se proteger do ataque de seu terrível perseguidor.


Segundo Halperim Chalmers, uma das únicas maneiras de fazer com que os Mastins de Tindalos percam sua pista é se isolar em um aposento perfeitamente redondo, sem ângulos através do qual a criatura seja capaz de se formar. Viajando através do "tempo angular", os Mastins carecem de um ponto formado por um ângulo reto, sem o qual eles não podem se manifestar fisicamente em nossa realidade. Manter-se em um aposento redondo pode fazer com que o Mastim perca o rastro que está seguindo. Essa técnica, no entanto, não é à prova de falhas. Sabe-se de Tindalos que conseguiram seguir suas presas até o espaço correto no tempo correto, iniciando sangrentas buscas que lograram sucesso, mesmo com a presa perfeitamente escondida. Para auxiliar em suas caçadas, os Mastins podem invocar aliados metafísicos como sátiros (possivelmente servos de Shub-Niggurath) e Dholes para destruir esconderijos.

Outro fator preocupante é que, a medida que os Mastins se aproximam de sua presa, esta começa a sentir as emanações telepáticas do predador. Lentamente esse vínculo com a mente alienígena do Tindalos faz com que a vítima perseguida enlouqueça. O já mencionado ocultista Halpin Chalmers tentou se esconder em sua mansão em um aposento cujos ângulos retos foram cobertos de gesso e proteções místicas. Seu objetivo era escapar do perseguidor se mantendo lá até este perder o seu rastro. Ele poderia ter sucesso em seu plano, não fosse um inesperado terremoto que atingiu a região, fazendo com que as defesas erguidas por Chalmers desmoronassem.

Certas narrativas reunidas em um livro intitulado "The Black Tome of Alsophocus" (O Tomo Negro de Alsophocus, escrito em 1550), afirma que os Mastins de Tindalos são a personificação da própria corrupção e da entropia universal. Eles teriam ainda uma ligação íntima com a humanidade. Alsophocus, um monge cristão acreditava que a Queda do Paraíso era uma alegoria que envolvia a relação espúria entre o homem e os Mastins, representados na Bíblia como Servos de Satã. Acadêmicos que se debruçaram sobre esse trabalho sugerem que o mítico artefato conhecido como Trapezoedro Brilhante (Shinning Trapezohedron), está de alguma forma relacionado ao ódio que os Tindalos reservam para os seres humanos. Supostamente, o artefato, criado por Nyarlathotep, teria drenado parte da essência dos Tindalos, enquanto os humanos foram poupados desse destino por razões desconhecidas. O resultado direto disso fez com que os Mastins fossem aprisionados em uma cidade fantasmagórica na fronteira do Tempo Angular, onde eles se tornaram eternos prisioneiros.

Há conjecturas de que Nyarlathotep os aprisionou para oferecê-los como presente para Azathoth, mas são poucas as evidências que comprovam essa assunção. Para alguns estudiosos, a misteriosa cidade prisão, formada por imensas torres negras em formato de espiral, seria a origem do nome "Tindalos".


Estabelecer uma relação amistosa com Mastins de Tindalos parece ser virtualmente impossível, embora existam rumores nesse sentido. Uma matilha de Mastins conhecidos como ny'rela, teria sido compelida a servir um mestre humano especialmente poderoso, embora o rumor não revele detalhes de como essa barganha foi firmada ou se ela de fato envolvia exemplares de Mastins. Alguns conectam os Tindalos com o macabro Culto Cadáver de Leng, cujo símbolo é um cão alado.

 A origem dos Mastins de Tindalos é no mínimo obscura. As conjecturas mais populares supõem que eles podem vir do Passado distante ou de outra dimensão. O fato é que eles costumam atravessar eras inteiras e planos de existência simplesmente abrindo passagens dimensionais. Os Mastins podem realizar essa façanha meramente se concentrando e saltando nas passagens que foram previamente abertas. Essas passagens são normalmente envoltas por cortinas de fumaça cinza azulada ou esverdeada que ao abrir ou fechar descarregam eletricidade e faíscas. Antes da abertura de um portal é possível detectar um ruído de estática. Uma vez no interior da passagem, as criaturas podem se deslocar pelo tempo se materializando onde quer que exista uma passagem formando um ângulo reto. A capacidade de viajar através do tempo faz com que eles sejam virtualmente eternos, imunes a passagem dos milênios.

O termo "Mastim" se refere ao fato da aparência geral dos Tindalos lembrar remotamente a de um enorme cão, magro e longilíneo. Para muitos, a comparação é bem pouco satisfatória pois embora a criatura lembre de longe o formato de um cão, uma simples observação revela que eles guardam bem poucas similaridades com qualquer animal terrestre.

Os Mastim possuem um corpo longilíneo e magro a ponto de ser emaciado, com quatro pernas longas guarnecidas de musculosos tendões. Nas costas, estruturas ósseas da coluna se destacam, bem como costelas que compõem a caixa toraxica. Eles não possuem pelo ou mesmo pele o que lhes confere uma aparência cadavérica e alienígena. Todo corpo da criatura é coberto por camadas de uma substância de consistência viscosa semelhante a um piche negro. Para muitos, essa substância lembra uma sombra quase-sólida que acompanha a criatura garantindo a ela proteção e furtividade. À noite, o Mastim se mistura com a escuridão tornando-se praticamente invisível.  


Tipicamente eles tem um comprimento de 1,80 a dois metros, mas alguns espécimes podem ser ainda maiores chegando a quase três metros do focinho à ponta da cauda - quando esta existe. O movimento do Mastim é fluido e elegante, a criatura caminha com a altivez de um grande felino, saltando distâncias consideráveis graças às potentes pernas traseiras. Embora possa correr com velocidade, eles preferem usar seu deslocamento através dos planos para desaparecer de uma posição e surgir em outra quase que instantaneamente. Essa estratégia é utilizada principalmente quando o Mastim está caçando e deseja encurralar sua presa.

Para qualquer observador se torna óbvio que o Mastim é um predador. Suas patas terminam em garras afiadas formadas por pontas ósseas. O Mastim as usa para dilacerar suas presas com um eficiência cruel. Dotada de seis dedos com longas falanges, a pata se assemelha muito mais a uma mão, visto que têm capacidade táctil podendo agarrar e realizar tarefas manuais complexas. Um Mastim é perfeitamente capaz de segurar objetos, usar ferramentas e abrir portas. As patas traseiras são mais longas terminando em estruturas ósseas que lhe garantem estabilidade. Alguns espécimes possuem uma cauda sinuosa e comprida que lembra um tentáculo nodoso, outros possuem vários desses tentáculos espalhados pelo dorso ou sobre as escápulas.

A cabeça da criatura é o que chama mais a atenção, ela tem características vulpinas, embora não possa realmente ser comparada a nenhum animal da natureza terrestre. Os olhos são pequenos e desproporcionais, surgindo aos pares, mas podendo surgir em outros números, localizados em posições diferentes de cada lado da cabeça. Eles podem ser esverdeados, avermelhados ou ter um brilho púrpura que muitos salientam reflete inteligência e maldade. As orelhas em comparação são pontudas e sempre em estado de atenção, sendo que por vezes elas não são aparentes.

O crânio é alongado e o focinho extremamente comprido se dividindo numa bocarra que, aberta, se dilata para formar um ângulo obtuso. O interior dessa boca é dotado de fileiras de dentes tortos que crescem em todas direções em diferentes tamanhos e formas. As presas são afiados e a potência da mandíbula permite que a mordida cause danos consideráveis. Quando a boca se fecha, o Mastim tende a relhar as presas em um movimento de rasgar, como se fosse uma serra. Não é raro que a criatura após uma mordida perca vários dentes que ficam enterrados na carne da presa. Os dentes tendem a se deteriorar rapidamente e em poucas horas desaparecem. Uma única mordida pode resultar em quase uma centena de perfurações simultâneas.
Além dos terríveis dentes, outra característica da boca dos Mastins é a língua que serpenteia sem parar. Essa língua azulada tem uma forma tubular medindo até um metro e meio de comprimento. Ela é musculosa e pode ser usada como uma espécie de chicote agarrando, puxando e apertando quando necessário. A estrutura é oca, com uma fenda na extremidade, dela goteja uma bile de coloração azulada viva. Essa saliva viscosa, semelhante a um pus, escorre em profusão e quando o Mastim morde, acaba transferindo parte dela para o corpo da presa. Essa substância é extremamente tóxica representando uma grave ameaça quando em contato com seres vivos. Quando em contato com a pele, o pus provoca queimaduras cáusticas e levado à circulação, causa envenenamento. A exposição prolongada deixa marcas que lembram gangrena; a pele tende a escurecer e apodrecer em camadas que se cobrem de feridas sangrentas. A substância pode ser removida com uma toalha ou enxaguada com água, diminuindo assim sua letalidade. Uma presa coberta pelo pus pode morrer em poucos segundos, uma morte agonizante e dolorosa.

Análise dessa gelatina azulada demonstra que os Mastim não possuem enzimas em seus corpos. Enzimas, na natureza, são importantes para catalizar reações químicas, a maneira como o organismo do Mastim funciona é totalmente alienígena de um ponto de vista da biologia terrestre. A utilidade prática do pus azulado é desconhecida, é possível que seu propósito seja apenas defensivo, o que explica o motivo da criatura espalhar sobre suas garras a substância.

O pus causa a dissolução completa do Mastim quando ele é "morto" e o dissolve em poucos instantes não deixando nada para traz. Matar um Tindalo é tarefa extremamente difícil. A matéria que constitui a criatura e a substância sombria que a envolve agem como uma defesa contra a maioria dos ferimento que ele pode vir a sofrer. Feridas provocadas por armas de fogo, lâminas perfurantes ou contundentes simplesmente se fecham em instantes, sem prejuízo para o monstro. Fogo, eletricidade, ácido, radiação... nada, com exceção de magia, causa dano duradouro na criatura.  

Biologicamente não existe nenhum consenso a respeito do ciclo de vida dessas criaturas. Não se sabe, por exemplo, como é sua reprodução e se existe divisão entre machos e fêmeas. Não há nenhuma menção a gênero ou relato sobre filhotes. É possível que os jovens não sejam capazes de se mover pelos planos, mas mesmo os que exploraram a Cidade de Tindalos jamais viram uma criatura que não seja adulta.


É fato, entretanto, que os Mastins são seres inteligentes, dotados de uma consciência maligna e imoral que impele cada uma de suas ações. A motivação principal desses seres é perseguir, matar e desaparecer sem serem vistos. Para atingir seus objetivos, eles demonstram um nível de brilhantismo surpreendente, sendo tão ou mais inteligentes que seres humanos médios. Suas estratégias durante a caçada incluem cercar, enganar e atrair suas presas ludibriando e disfarçando quando necessário. Um Mastim também demonstra um prazer transcendental em provocar a morte, sendo que alguns agem com indisfarçável sadismo. Essas criaturas conseguem entender idiomas humanos e presume-se que alguns são perfeitamente capazes de se comunicar em línguas terrenas, ainda que com um timbre roufenho e gutural.

Em todas as referências feitas aos Mastins de Tindalos recomenda-se cuidado extremo. É possível que esses monstros hiperdimensionais sejam uma das formas de vida mais hostis a espécie humana, uma criatura cujo único propósito parece ser a destruição de forma ampla e completa.

Outras criaturas dos Mitos de Cthulhu e sua Anatomia Absurda:

Lloigor

Horror Caçador

Byakhee

Ghouls

Cor do Espaço

Shoggoth

Insetos de Shaggai

Andarilho Dimensional

sexta-feira, 9 de junho de 2017

Chamado de Cthulhu no Brasil - Rumores, certezas e anúncios


E as férias do Blog são interrompidas novamente, mas por bons (de fato, excelentes) motivos.

Nos últimos dias, notícias a respeito do futuro do RPG Call of Cthulhu (ou Chamado de Cthulhu) pipocaram aqui e ali.

Tudo começou quando a Editora Terra Incógnita veio à público, semana passada, anunciando o encerramento de suas atividades no que diz respeito ao jogo aqui no Brasil. A Editora, responsável por trazer a sexta edição de Chamado de Cthulhu através de um Financiamento Coletivo bem sucedido em 2013, anunciou que não mais publicaria o material. Isso abriu o caminho para muitas especulações e conjecturas sobre quem poderia vir a adquirir os direitos sobre o jogo e se alguém realmente o faria.

Vamos direto aos fatos:

Os rumores sobre uma editora nacional adquirir os direitos para tradução e comercialização de Call of Cthulhu no Brasil são totalmente VERDADEIROS.

O Mundo Tentacular soube dessa negociação no final de abril, através de pessoas de dentro da própria Chaosium. A fonte perguntou a respeito do trabalho de uma editora e a atuação desta no mercado brasileiro. Após elogiar o trabalho e enviar imagens do material publicado pela editora, a Chaosium se mostrou muito satisfeita e confiante de que ela faria um ótimo trabalho com sua publicação mais conhecida.


Nós entramos em contato com os responsáveis da Editora brasileira e eles confirmaram as negociações que naquele momento estavam em fase inicial. Foi com grande satisfação que dei os parabéns aos envolvidos que estavam felicíssimos pelas boas novas. Desde então, essas negociações progrediram de maneira perfeita e tudo está praticamente acordado entre as partes. 

A Sétima Edição de Chamado de Cthulhu, a mais recente, publicada em 2015, será publicada em breve.

A editora inclusive já contratou os tradutores para iniciar os trabalhos com o Quick-Start Rules de Chamado de Cthulhu contendo as Regras Básicas do sistema. O livro também começará a ser traduzido e sobre isso, posso adiantar que o Mundo Tentacular estará envolvido no projeto.


Infelizmente, não podemos citar nomes, visto que algumas formalidades ainda precisam ser cumpridas. Contudo, posso afirmar que o Anúncio Oficial será feito em breve, de uma maneira diferente, com a presença dos responsáveis diretos.

Bom é isso, excelentes notícias como eu disse lá no início!

A sétima edição de Cthulhu está chegando em terras brasileiras, preparem-se.

Iä! Iä! Cthulhu Fhtagn! Iä! Iä!

quarta-feira, 7 de junho de 2017

Ironclads - O Poder do Ferro sobre a Madeira e uma batalha naval épica


Postado originalmente em 24/02/2013

O início da Guerra Civil Americana foi muito desfavorável para os Estados Confederados. Eles iniciaram a Guerra mal preparados para um conflito dessa magnitude. Sua marinha era absolutamente deficitária, formada por alguns poucos navios mercantes modificados para a guerra. Nos primeiros meses da Guerra, o Norte aproveitou sua superioridade naval e conquistou importantes vitórias impondo um bloqueio que estrangulava as linhas de abastecimento das tropas rebeldes.

A medida que a guerra se espalhava e o número de vítimas aumentava, os Confederados buscavam uma solução para o impasse que poderia decretar sua rápida derrota. Por volta de 1861, engenheiros confederados tiveram uma idéia no mínimo ousada.

O grupo de engenheiros navais liderados pelo Tenente John Mercer Brooke tinham como missão  modernizar a marinha sulista. Para isso, apresentaram a proposta aos generais perguntando a eles: "O que faz com que um navio seja derrotado em uma batalha naval?" ao que responderam imediatamente: "Ser atingido pelas armas do inimigo". Sorrindo Mercer Brooke concluiu: "Senhores nossa proposta é fazer com que nossos navios se tornem imunes às armas do inimigo". 

O princípio era extremamente simples! Eles soldaram enormes placas de ferro fundido ao longo do casco de uma de suas fragatas à vapor, o Merrimack, uma de suas mais importantes embarcações. As espessas placas de ferro eram não apenas capazes de resistir a artilharia pesada, mas conseguiam fazer com que os projéteis se desviassem sem causar danos significaticos. Um disparo direto que atingisse o casco reforçado ricocheteava explodindo longe da embarcação. 

Foi assim que surgiu o primeiro Ironclad (Encouraçado).


A aparência do Merrimack era no mínimo intimidadora.  O navio parecia uma imensa tartaruga pré-histórica silenciosa e cheia de espinhos ou um feroz jacaré do Mississipi. Ele era lento, mas com a sua proteção não precisava ter grande mobilidade, a vantagem do Encouraçado era suportar o castigo do inimigo e devolver cada petardo recebido. 

O enorme peso extra fazia ainda com que o Merrimack afundasse ficando abaixo do nível do costado das demais embarcações. Isso não apenas o tornava mais protegido dos disparos das fragatas da União, mas garantia uma vantagem estratégica. Estações de tiro foram distribuídas em suas laterais, cinco de cada lado. Cada estação, guarnecida por um canhão pesado era capaz de disparar pouco acima da linha da água, um excelente local para danificar seriamente os navios inimigos. Mas a arma mais ameaçadora do Encouraçado era o imenso ariete em forma de cabeça de arpão que foi posicionado em sua proa como o bico de uma ave de rapina. Investindo contra um oponente o aríete de ferro fundido podia furar o casco de outros navios levando-os a pique em minutos.

O Merrimack era uma arma poderosa que logo se provou letal tornando-se o indiscutível senhor dos Mares, rios e afluentes. A novidade causou comoção e instalou um clima de apreensão. Dizia-se que um Monstro Marinho nadava em águas rasas afundando e destruíndo as fragatas da União. A besta surgia do nada, em meio a uma nuvem de fumaça escura, investia contra as embarcações, partindo quilhas e arruinando a orgulhosa marinha de guerra do Norte. Não por acaso, o novelista Julio Verne se inspirou nas notícias sobre o Merrimack para conceber o Nautilus, a célebre embarcação do Capitão Nemo, personagem de Vinte Mil Léguas Submarinas. 

Descrito como um navio como nenhum outro, custou ao Norte compreender que estava diante de um oponente contra o qual pouco podia fazer. 


8 de março de 1861 foi um dia negro para a Frota da União ancorada em Hampton Roads, Virgínia. No começo da noite, uma coluna de fumaça foi avistada e de dentro dela surgiu o Merrimack avançando para o estaleiro onde estava um dos mais importantes navios da frota inimiga, o USS Cumberland. Os vigias deram sinal de alerta e o Cumberland prontamente abriu fogo. Os projéteis se chocaram contra as placas de ferro sem provocar danos significativos. O Merrimack prosseguiu implacavelmente em seu curso até que abalrroou violentamente a sua presa. A seguir, as comportas laterais se abriram e canhões começaram a disparar quase que a queima roupa. O rugido dos canhões só se silenciaram minutos depois. O Cumberland fora reduzido a estilhaços de madeira fumegantes pelo colosso de ferro. Marinheiros tentavam se agarrar aos destroços flutuantes, centenas se afogaram ou foram atropelados pelo Merrimack a medida que ele se afastava nas águas revoltas tingidas de vermelho. Triunfante, o capitão ordenou que ele fizesse meia volta e disparou impiedosamente uma nova salva contra o estaleiro.

O Merrimack seguiu em sua campanha de destruição, arrasando dias depois com o USS Congress. A fragata de guerra foi castigada por disparos e quando estava prestes a naufragar recebeu o golpe de misericórdia, uma investida frontal com o potente aríete. Em chamas, o Congress agonizava e os marinheiros confederados comemoraram ao ouvir o som do paiol de pólvora explodindo.

Dias mais tarde o USS Minessota quase se tornou a próxima vítima. Alvejado pelas baterias do encouraçado, seu capitão ordenou uma manobra ousada e escapou por pouco do bombardeio maciço de canhões. Bater em retirada parecia ser a única medida razoável para as embarcações que tinham o azar de cruzar com o Merrimack.

Na madrugada após o ataque, os marinheiros do Minessota ainda tremendo após a fuga, avistaram algo estranho vindo em sua direção. Era uma embarcação ainda mais curiosa que o próprio Encouraçado Confederado. Uma espécie de grande jangada de ferro com o convés quase na linha de água e com um tipo de caixa de metal em forma de torre que se destacava em seu centro. Não havia vela, chaminé, pás, estações de armas, nada... uma bandeira da União, contudo, tremulava no topo da torre. Os marinheiros observaram embasbacados a estranha embarcação passar por eles navegando lentamente na direção do até então imbatível Merrimack.


O que poucos imaginavam é que o Norte, logo depois de descobrir que o inimigo havia construído um navio de guerra encouraçado havia iniciado um plano para construir uma arma semelhante. O projeto ficou sob responsabilidade do inventor sueco John Ericsson, nas palavras do Ministério da Marinha, "O único capaz de construir algo que desafiasse o colosso confederado". Ericsson era considerado orgulhoso, grosseiro e rabugento, mas acima de tudo brilhante. Ele exigiu que o Ministério da Guerra lhe concedesse carta branca para montar sua arma e um pagamento monumental pelo serviço. O governo concordou com cada exigência. Meses depois, Ericsson apresentou a embarcação em que vinha trabalhando desde 1850, um navio de guerra com design revolucionário que ele chamou de USS Monitor.

O navio possuía apenas dois canhões pesados, para rivalizar com os dez canhões do Merrimack, mas eles eram montados em uma torre com base móvel que girava 360 graus. Com isso eles podiam ser posicionados de acordo com a posição do alvo que se desejava atingir. O Monitor era inteiramente revestido com ferro fundido rebitado com enormes parafusos de metal e tão pesado que muitos críticos achavam que seria impossível ele flutuar. O navio era baixo, com um costado com apenas 40 polegadas acima da linha da água, o que o tornava extremamente difícil de ser atingido. Como resultado o convés alagava e era tomado de água parecendo que ia afundar. Ericsson, no entanto, estava tranquilo quanto a performance de seu encouraçado e o próprio Presidente Lincoln aprovou sua construção em caráter de urgência. O futuro da marinha dependia do invento de Ericssen.

Em janeiro de 1862, apenas 100 dias depois de ser iniciada sua construção, o Monitor navegava encoberto pelo véu da noite em sua viagem secreta de teste ao longo do East River contornando a Ilha de Manhatan. Dizem que o ministério da marinha realizou o teste em segredo pois temia um fracasso retumbante. O navio era tão inovador que haviam 47 invenções patenteadas por Ericssen a bordo dele. As poucas testemunhas que viram seu lançamento disseram ter visto homens literalmente andando sobre a água e uma estranha casa em forma de torre despontando na água. Em sua viagem de teste o Monitor parecia fadado ao fracasso: foi invadido pela água, os ventiladores falharam e marinheiros quase sufocaram em seu interior blindado. Mas o Monitor era silencioso e se movia com uma graça desconcertante para uma embarcação tão pesada. Apesar dos problemas, o navio partiu rumo a frente de batalha com a missão de encontrar seu algoz.


O Monitor era a embarcação vista pela tripulação do Minessota. Seu capitão, um oficial experiente chamado John Worden havia recebido informes de que o Merrimack fora sido visto por navios mercantes nos arredores do estaleiro de Hampton Roads onde promovera um massacre. Era o palco ideal para a revanche. Ali se daria a primeira batalha de Encouraçados da história.

O Monitor foi o primeiro a avistar o oponente e avançou na direção do Merrimack que disparou tão logo deu conta de sua presença. Uma barragem de artilharia acertou o costado do Monitor ricocheteando em sua estrutura de ferro. A Torre então disparou dois tiros seguidos, um deles na linha da água varou a marola atingindo o externo do Merrimack que estremeceu pela primeira vez. Isso deu tempo ao capitão do Monitor de se aproximar velozmente e ficar a poucos metros do inimigo. A Torre então começou a disparar um tiro depois do outro. Supõe-se que a tripulação do Monitor era mais disciplinada e treinada, conseguindo disparar e carregar a cada minuto, enquanto os artilheiros no Merrimack - talvez pelas vitórias fáceis, não demonstravam a mesma disposição. Um tiro a cada três, quatro minutos era o mehor que eles conseguiam fazer.

O capitão Worden também usou de uma tática inteligente. Chegando perto o bastante para disparar, ele conseguia atingir o costado do Merrimack enquanto os disparos do adversário passavam por cima de sua nave. Além disso a torre móvel concedia uma enorme vantagem, comparado a disposição linear dos canhões. Marinheiros que participaram da batalha relatam que os dois encouraçados chegaram tão perto que na maior parte da batalha era possível atingir os inimigos no outro barco com pistolas, facas e machados. As duas embarcações chegaram a se chocar pelo menos cinco vezes.


Após meia hora de confronto, o Merrimack havia sofrido danos em sua estrutura. As placas de ferro estavam retorcidas, chamuscadas e afundadas com os disparos a queima roupa. O Monitor sofreu danos, mas estava em melhor estado e sua torre continuava disparando ininterruptamente. O comandante do Merrimack tentou então uma manobra para empregar sua arma principal: o ariete. O Merrimack tentou se afastar para investir, mas Worden sabendo dessa ameaça tentava se manter o mais próximo possível. Os dois gigantes pareciam boxeadores se enfrentando em um pequeno ringue.

Combalido e prestes a afundar, o capitão do Merrimack ordenou a fuga e navegou para águas rasas torcendo para que o oponente não o seguisse em seu curso arriscado. Worden não ousou empreender perseguição, ele esperava que o inimigo encalhasse e se tornasse um alvo fácil. Ao invés disso, o encouraçado confederado realizou uma manobra milagrosa vencendo os bancos de areia em meio a barragem de disparos.

Quando o navio inimigo saia do alcance de suas baterias, as escotilhas do Monitor finalmente foram abertas para que os marinheiros respirassem ar fresco. Eles haviam ficado trancados na barriga de ferro do Monitor, mas não pararam de atirar até quase esgotar suas reservas de munição. Vários desses homens perderam completamente a audição graças ao estrondo de seus canhões reverberando na caverna de metal em que se protegiam. Outros tantos estavam feridos ou intoxicados pelo odor de pólvora. Haviam quatro equipes de artilheiros que se revesaram ao longo das duas horas de batalha. Os homens retornaram a um alcoradouro da união e foram saudados como heróis, os vencedores de uma dura batalha pela hegemonia dos mares.

Quanto ao Merrimack, ele conseguiu escapar de navios inimigos que avisados por telégrafo iniciaram uma perseguição implacável. Abrindo caminhos por águas rasas ele chegou a base de Norfolk para receber reparos, o encouraçado mal flutuava e seus tripulantes estavam em estado decrépito. Alguns não dormiam a 72 horas. Infelizmente, Norfolk não foi uma boa escolha de destino: a base estava prestes a cair nas mãos das tropas da União. Seriam necessários meses até o Merrimack poder navegar novamente. Sabendo que ele acabaria caíndo nas mãos de seus inimigos, o comando deu ordens para que ele fosse explodido.


Mesmo antes da épica batalha de Hampton Roads, os dois lados já estavam construindo mais Ironclads para aparelhar suas marinhas. Aquele que tivesse maior poder de fogo e resistência fatalmente conquistaria a vitória no mar e daria um impulso em direção a vitória.

Outros Encouraçados se enfrentaram durante a Guerra Civil, mas nenhuma batalha foi tão marcante quanto o enfrentamento entre o Merrimack e o Monitor. Quando, esses dois navios abriram fogo um contra o outro, todas as demais marinhas do mundo se tornaram imediatamente obsoletas. E mesmo as nações européias observavam em preocupada fascinação o surgimento de uma nova arma que mudaria para sempre as Batalhas Navais e substituiria as naves de madeira por embarcações de aço.